terça-feira, 22 de julho de 2014

Nietzsche: a justiça do ativo versus a vingança do reativo




   Se há uma coisa que devemos retirar do pensamento de Nietzsche é sua noção de moralidade e justiça. Pois ela não é platônica, idealizada, utópica, ao ponto de edificar — apenas em abstração — um mundo de “perfeição moral” sobre este nosso mundo verdadeiro, da realidade... o qual, de fato, não é tão bonitinho e inofensivo como muitos gostariam.
   Por outro lado, essa noção nietzscheana de moralidade e justiça também não pende — como muitos crêem, por ignorância de seus escritos — para o outro extremo, de um mundo absolutamente maligno, despótico, de um incessante fluxo de ódio, anarquia e destruição, como realmente se poderia supor a partir de um ponto de vista ressentido (esse que, aliás, será demonstrado como o grande erro na consideração do problema).
   Para quem só está disposto a aceitar como justa a vida em alguma espécie de paraíso, a existência real nunca será mesmo satisfatória, e aliás também nunca será nada além de um inferno, ou de um purgatório. Por isso, àqueles que concebem o caráter perigoso e dinâmico da vida como algo de totalmente inaceitável, ou moralmente injustificável, só restam duas expectativas: aguardar, como um santo ou como um pecador resignado e arrependidinho, pelo suposto paraíso vindouro... ou buscar prevalecer, como um demônio ensandecido, no suposto inferno desta vida.
   E qual não é a surpresa quando constatamos que ambas as posições são, em geral, tomadas igualmente pelo mesmo tipo, isto é, o sujeito ressentido, que não suporta esta existência, que a enxerga como um inferno cósmico? Pois essa é a psicologia tanto do comunista quanto do cristão, e por isso mesmo o esquema metafísico e ontológico de ambos se constrói a partir das mesmas reações rancorosas, dos mesmos afetos ressentidos — como em breve ficará claro na leitura dos aforismos de Nietzsche.
   O outro extremo de só poder aceitar um mundo que seja absolutamente inofensivo e pacífico, isto é, só conseguir conceber um mundo que seja absolutamente maligno e despótico, consiste afinal no resultado esperável de uma mente fragmentada, que oscila entre dois pólos opostos, e que por fim gera uma conduta ambígua, inconscientemente oscilatória, como um pêndulo esquizofrênico que se move entre o amor e o ódio extremos. 
   Esse é o caso de vermos tantos que se dizem de esquerda ostentando um pacifismo demagógico de retardado (ou de cínico), que pretende desarmar os cidadãos e destitui-los de seu direito natural de castigar ou eliminar um bandido, como se a resposta para todos os males do mundo só pudesse ser o carinho e o amor distribuídos de maneira gratuita — ao passo que esses mesmos esquerdistas, contaminados que estão por uma cosmovisão reativa e rancorosa, também só conseguem conceber este mundo como injusto, odioso, enganador, falso, cruel, e no qual portanto somente o ódio, a malícia, a injustiça, o engodo, a falsidade, serviriam de atributos positivos para efetivamente se alcançar qualquer objetivo: até mesmo a máxima justiça, a paz absoluta!
   Assim que temos tipos como Lenin, Stalin, Roosevelt, Truman, Fidel Castro, Che Guevara, Mao Tse-Tung, Pol Pot, Kim Jong-il, todos líderes de esquerda que mantinham sob seu discurso político a promessa de um “bem maior e supremo”... pelo que então puderam justificar, rasteiramente, um “mal maior e supremo”!










   O cristão, se analisarmos a fundo sua crença, também espera por uma espécie de utopia, só que em moldes metafísicos: o “paraíso” onde todos viveriam em eterna paz e harmonia, bem providos por um poder divino centralizado, monopolizado — afinal monoteísta —, sustentados sobre uma divina “ordem jurídica concebida como geral e soberana” (nas palavras de Nietzsche, ao criticar o sistema pretendido pelos comunistas), que não mais permitiria a luta, a disputa, a competição, a evolução, enfim, a dinâmica natural da vida. 
   Isso tudo é o que esperam, que almejam, que sonham os cristãos, na mesma verve utópica dos comunistas e esquerdistas; e da mesmíssima forma, impulsionados pelos mesmos afetos reativos de rancor, igualmente esperam, almejam, sonham com uma revolução capaz de trazer isso tudo, de uma vez por todas, às custas das mais altas, largas e dolorosas labaredas expiatórias.
   No reservatório inconsciente do cristianismo, essa grande fome por carnificina, por genocídio, por expiação em massa, em suma, essa grandiosa revolução redentora capaz de trazer o “admirável plano novo” ganha o pomposo nome de ‘Juízo Final’ — a concretização teórica de todos aqueles impulsos de ódio reprimidos —, situação essa que justificaria, ontológica ou metafisicamente, a promessa de seu belo paraíso... pois que esse só se encontra no além (tanto faz se temporal ou celestial), através de pura abstração da realidade a que temos acesso, o mundo natural dos fenômenos reais, tal como sempre existiu e sempre pôde ser observado em suas leis básicas.





   O ‘Juízo Final’, o ‘Apocalipse’ (‘Revelação’), o ‘Inferno Cristão’, constitui, desse modo, a projeção reativa, ressentida, rancorosa, de um cenário de terror em que haveria uma brusca ruptura da ordem real (em suas leis básicas, dinâmicas, evolutivas...), com uma suprema ordem totalmente estática erigida a partir de um evento totalmente catastrófico, tenebroso, caótico (‘ordo ab chao’)... o que então poderia justificar, em teoria, a crença no eterno paraíso — e não em uma simples continuidade da vida neste plano de existência, mantendo-se, contudo, os mesmos princípios e leis primordiais já observáveis (como a dinâmica e a evolução natural da vida).










   Não por acaso essa visão “revelada” ao profeta soa tão similar às visões reais que já  pudemos verificar, em doses homeopáticas, no genocídio de alemães, japoneses, chineses, armênios e palestinos, e na incineração compulsiva de hereges em fogueiras da Santa Inquisição (que houve na Idade Média, porém de forma ainda mais brutal na Idade Moderna, como na Inquisição Espanhola dos séculos XVI ao XIX), e em tantos outros episódios semelhantes que se estendem, em casos particulares, por toda a história, e que compartilham todos do mesmo pathos revolucionário nascido nos delírios de um Stalin, um Robespierre, um Torquemada.





   E não por acaso, também, essa revelação apocalíptica do cristianismo é incrivelmente similar às visões “reveladas” ao judeu Marx, quando esse, por exemplo, afirmava que o destino dos opositores dos objetivos comunistas era o de “perecerem no holocausto revolucionário.” O destino dos infiéis, que se apõem aos objetivos do cristão, também seria, no sistema de crença desse, o de perecerem no holocausto revolucionário, o qual aqui já se identifica com o inferno, o mar de fogo em que são queimadas hordas inteiras de adversários da fé cristã, após o tal “juízo final”.





   Pois bem, seguem então os aguardados aforismos de Nietzsche, tirados de sua obra ‘Genealogia da Moral’:


***

— Alguém deseja descer o olhar sobre o segredo de como são fabricados os ideais na terra? Quem tem coragem para tanto? ...Muito bem! Aqui abre-se a vista a esta oficina negra! ...Mas espere ainda um instante, senhor curioso e destemido: seus olhos devem primeiro acostumar-se a esta luz fraca e trêmula... Certo! Basta! Fale agora! Que sucede ali embaixo? Diga o que vê, homem da curiosidade temerária — agora sou eu quem escuta. 
— Eu nada vejo, mas por isso ouço muito bem. É um cochichar e sussurrar cauteloso, soturno, rumorejante, vindo de todos os cantos e fissuras. Parece-me que mentem; uma suavidade doce e pegajosa escorre de cada som. A fraqueza é mentirosamente transmudada em mérito, não há dúvida. É como você disse. 
— Prossiga! 
— E a impotência que não consegue acertar contas é transmudada em ‘bondade’; a timidez covarde, em ‘humildade’; a submissão a quem se odeia, em ‘obediência’ (na verdade há alguém que, dizem, ordena esta submissão — chamam-no Deus). O que há de inofensivo no fraco, a própria covardia na qual é pródigo, seu aguardar na soleira da porta, sua inelutável espera pela morte, recebe aqui o bom nome de ‘paciência’, também denominado como  ‘virtude’; o não-poder-revidar chama-se não-querer-revidar, talvez até mesmo perdão (“pois não sabem o que fazem; só nós sabemos o que fazem!” [Lucas 23.34]). Falam também do “amor aos inimigos” — e como suam ao falar disso! 
— Prossiga!
— São miseráveis, não há dúvida, esses falsificadores e cochichadores dos becos escondidos, ainda que fiquem de cócoras e apertados entre si para se aquecerem. Mas eles me dizem que sua miséria é uma eleição e distinção por parte de Deus; talvez essa miséria seja apenas uma preparação, uma prova, um treino, talvez ainda mais... algo que um dia será recompensado e pago com juros altíssimos, em ouro... não!, em felicidade! A isto chamam “bem-aventurança”. 
— Prossiga!
— Agora me informam que não apenas são melhores que os poderosos, os senhores da terra cujo escarro têm de lamber (não por medo, de modo algum!, mas porque Deus lhes ordena a respeitarem essa autoridade [Romanos 13.1]), mas também “estão melhores”, ou de qualquer modo estarão algum dia. Mas basta, basta! Não agüento mais. Que ar ruim! Que ar ruim exala desta oficina onde se fabricam os ideais! Minha impressão é de que está fedendo a mentira!
— Não! Um momento! Você ainda não falou do golpe de mestre desses nigromantes, que transformam todo negror em brancura, em leite, em inocência; não notou a consumada perfeição de seu refinamento, o seu mais ousado, sutil, ardiloso e mendaz truque de artista? Preste atenção! Esses animais freqüentadores de taverna cheios de ódio e vingança — no que eles transformam precisamente o ódio e a vingança? Você ouviu suas palavras? Você suspeitaria, se pudesse ouvir apenas suas palavras, que esses que agora estão a sua volta não passam de homens de ressentimento?...
— Compreendo; abrirei de novo meus ouvidos (ah!, e taparei meu nariz!). Somente agora escuto o que tanto dizem: “Nós, pessoas boas — nós somos os justos” — O que eles aspiram não chamam de retaliação, mas de “triunfo da justiça”; o que eles odeiam não é seu inimigo, oh não!, mas a “injustiça”, a “falta de Deus”; o que eles acreditam e esperam não é a perspectiva de vingança, a embriaguez da doce vingança (“mais doce que mel”, como apontou Homero [Ilíada XVIII]), mas a vitória deste Deus ‘justo’ sobre os ímpios; o que lhes resta para amar na Terra não são os seus irmãos no ódio, mas seus “irmãos no amor” [Primeiro Tessalonicenses 1.3], como dizem todos eles, os bons e justos da Terra.
— E como chamam aquilo que lhes serve de consolo por todo o sofrimento do mundo? Como chamam a fantasmagoria da sua futura e antecipada bem-aventurança?
— Quê? Estou ouvindo bem? A isto chamam de “Juízo Final”, o advento de seu reino, do “Reino de Deus”... Mas por enquanto vivem “na fé”, “no amor”, “na esperança” [Primeira Epístola aos Coríntios 13.13] .
— Basta! Basta!

(Genealogia da Moral; Primeira Dissertação; Aforismo 14)

***

Fé em quê? Amor a quê? Esperança de quê? Esses fracos, é certo que também eles desejam ser os fortes algum dia, não há dúvida; também o seu “reino” deverá vir: chamam-no simplesmente o “Reino de Deus”, como vimos. São mesmo tão humildes em tudo! Para alcançar isto é preciso viver uma vida longa, que ultrapasse a própria vida. É preciso a “vida eterna” para ser eternamente recompensado no “Reino de Deus” por essa existência terrena “no amor, na fé, na esperança”. 
Recompensado pelo quê? E como?... Parece-me que Dante enganou-se grosseiramente quando, com espantosa ingenuidade, colocou sobre os portões de seu inferno a inscrição “também a mim criou o eterno amor” [Divina Comédia, Inferno III 5-6] — em todo caso, seria mais justificado se na entrada do paraíso cristão e sua “beatitude eterna” estivesse inscrito: “também a mim criou o eterno ódio” ...supondo que uma verdade pudesse figurar sobre a porta que leva a uma mentira!
Pois o que é a beatitude desse paraíso? ...Talvez já pudéssemos adivinhar; mas é melhor o expressivo testemunho de alguém cuja autoridade na matéria não se subestima: Tomás de Aquino, o grande mestre e santo. Diz ele, com a docilidade de um cordeiro: “Beati in regno coelesti videbunt poenas damnatorum, ut beatitudo illis magis complaceat” [“Os abençoados no reino celeste verão as penas dos danados, para que sua beatitude lhes dê maior satisfação” — Suma Teológica, Suplemento à Terceira Parte, questão XCVII, artigo i, ‘conclusio’]. Ou, querendo-se ouvir o mesmo conteúdo em tom mais forte, por exemplo da boca de um triunfante Pai da Igreja [Tertuliano] que desaconselha seus cristãos as volúpias cruéis dos espetáculos públicos... mas os desaconselha a isto por quê? Diz ele (De Spectaculis, cap. 30 ss.):
“A fé nos oferece muito mais, uma coisa muito mais forte; graças à redenção, dispomos de alegrias inteiramente diversas; em lugar dos atletas, temos nossos mártires; se queremos sangue, ora, temos o sangue de Cristo... mas o que é isto diante do que nos espera no dia de seu retorno, de seu grande triunfo!”
E ele continua, o visionário extasiado: 
“Mas há ainda outro espetáculo... aquele último e perpétuo dia do juízo final, aquele dia não esperado e até escarnecido pelas nações, quando toda a antigüidade e tantas gerações serão consumidas num só fogo. Quão vasto será então este espetáculo! Como o contemplarei admirado! Como rirei! Como me alegrarei! Como exultarei, vendo tantos e tão grandes reis, de quem se dizia estarem já no céu, gemendo nas mais profundas trevas, junto ao próprio Júpiter e às testemunhas de sua apoteose. Do mesmo modo os governadores das províncias, perseguidores do santo nome, derretendo-se em chamas mais cruéis que aquelas com que eles insolentemente maltrataram os cristãos! E também aqueles sábios filósofos, que diante de seus discípulos tornam-se rubros ao se consumirem no fogo, e, juntamente com eles, os que foram persuadidos de que nada importa a Deus, e de que as almas não existem ou não retornarão aos mesmos corpos de antes! Os poetas também, a tremerem, não diante do tribunal de Radamanto ou de Minos, mas daquele do Cristo inesperado! Então melhor se escutará esses autores, isto é, melhor serão ouvidos seus clamores (melhor o clamor, maiores os berros) em sua própria tragédia; então se reconhecerá os mais expressivos atores de pantomima, ainda mais facilmente por causa das chamas em que estarão se debatendo; então se verá aquele que representou como o cocheiro olímpico, todo rubro na verdadeira carruagem flamejante; então se contemplarão os atletas, não no ginásio, mas na fogueira; a não ser que eu nem queira ver esses espetáculos, pois antes prefira dirigir um olhar insaciável de gozo àqueles que maltrataram o Senhor: ‘Eis ele’, direi, ‘o filho do carpinteiro e da prostituta (como o chamaram os judeus), o destruidor do Sabbath [Sábado], o Samaritano, o que diziam ter o diabo. Eis aquele que comprastes de Judas, aquele que foi castigado com açoites e bofetadas, que foi humilhado com escarros, a quem foi dado de beber fel e vinagre. Eis o corpo daquele que, segundo vocês, os próprios discípulos roubaram às escondidas de sua tumba, para que se mentisse que havia retornado dos mortos, ou que o agricultor removeu para que suas verduras não fossem estragadas pelo grande número de peregrinos’. Tais visões, tais alegrias, que governador, ou cônsul, ou sacerdote, te poderia oferecê-las de sua própria generosidade? E no entanto, de certo modo, já as possuímos mediante a nossa fé, presente no espírito concebido. De resto, como são aquelas coisas que ‘nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem chegaram ao coração do homem?’ (1 Cor. 2,9), creio que são mais agradáveis que o circo, que ambos os teatros [cômico e trágico], e que todos os estádios.”
Per fidem: assim está escrito.

(Genealogia da Moral; Primeira Dissertação; Aforismo 15)

***

Agora uma palavra crítica sobre as recentes tentativas de se buscar a origem da justiça num terreno bem estranho: o do ressentimento. Antes direi no ouvido dos psicólogos [os interessados em compreender a mente humana], supondo que algum dia queiram estudar de perto o ressentimento: hoje esta erva daninha floresce de modo mais espetacular entre os anarquistas e anti-semitas, aliás onde sempre floresceu, na sombra, como a violeta, embora com outro aroma. E assim como daquilo que é igual sempre brotarão seus iguais, não é de se surpreender que precisamente desses círculos se vejam surgir tentativas, como já houve várias, de sacralizar a vingança sob o nome de justiça — como se no fundo a justiça fosse apenas uma evolução do sentimento de estar ferido — e depois promover, com a vingança, todos os afetos reativos. Quanto a esse ponto, eu não teria tanto o que objetar: a consideração do problema biológico em seu conjunto (em relação ao qual o valor dos afetos não tem sido suficientemente levado em conta) me parece até mesmo um mérito
O que gostaria de sublinhar é que, em tal circunstância, essa nova nuance de justificação científica (em favor do ódio, do despeito, da inveja, da suspeita, do rancor, da vingança) nasce do próprio espírito de ressentimento. Pois essa “justificação científica” se detém muito cedo num determinado aspecto [o reativo], dando lugar a desvios de parcialidade e inimizade mortal, quando, me parece, um outro grupo de afetos é que possui um valor biológico bem mais elevado que o dos afetos reativos, e que, portanto, mereceria ser cientificamente validado, além de muito estimado: os afetos propriamente ativos, como a vontade de dominar, o desejo de possuir, e outros assim. Apenas isto a dizer contra essas tendências (E. Dühring, ‘O Valor da Vida: Um Curso de Filosofia’; de fato, em todas suas obras).
Mas quanto à afirmação específica de Dühring, de que a fonte da justiça encontra-se no terreno do sentimento reativo, é preciso, em prol da verdade, contrapor-lhe bruscamente com a afirmação inversa: o último terreno conquistado pelo espírito da justiça é o do sentimento reativo! Quando acontece realmente de observarmos o homem ser justo até mesmo com quem lhe prejudica (e não apenas frio, comedido, distante, indiferente: pois ser justo implica sempre em uma postura ativa), quando a elevada, clara, branda e também profunda objetividade do olho justo, do olho que julga, não se turva sequer ante o assalto da injúria pessoal, do escárnio e da calúnia, bem, isto é sinal de perfeição e suprema maestria, — algo, inclusive, que prudentemente não se deve esperar e em que não se deve facilmente crer. É certo que, no geral, mesmo para as pessoas mais honradas, basta uma pequena dose de agressão, malícia, insinuação, para lhes fazer subir o sangue aos olhos e assim perder de vista a imparcialidade. 
Porém, o homem ativo, agressivo, que até mesmo se excede, está sempre muito mais próximo da justiça do que o homem reativo, omisso, covarde; pois ele não está necessariamente preso a uma avaliação parcial e falsa do problema, como sempre acontece com o homem reativo. Assim, efetivamente, o homem agressivo, como o mais forte, nobre, corajoso, em todas as épocas conservou o olhar mais claro, a consciência mais livre: inversamente, já se sabe quem carrega consigo a invenção da “má consciência” — o homem de ressentimento! 
Afinal, consultemos a história: a qual esfera, até o momento, tem pertencido em seu conjunto a administração do direito, e também a própria exigência de direito? Seria porventura à esfera dos homens reativos? De modo algum; mas sim à dos ativos, fortes, espontâneos, agressivos. Em termos históricos, o direito na terra representa justamente — seja dito para desgosto do já mencionado agitador [E. Dühring] (o qual faz ele mesmo esta confissão: “a doutrina da vingança atravessa todos os meus trabalhos e esforços como um fio vermelho de justiça”) — a luta travada contra os sentimentos reativos, a guerra que lhes movem os poderes ativos e agressivos, que utilizam parte de sua força para conter os desregramentos do pathos reativo, mantendo-os sob controle e dentro dos limites, e assim impor um acordo. 
Em toda parte onde se exerce e se mantém a justiça, vemos um poder mais forte que busca meios de, entre os mais fracos a ele subordinados (grupos ou indivíduos), dar fim ao insensato furor do ressentimento, seja retirando das mãos da vingança o objeto do ressentimento, seja substituindo a vingança pela luta contra os inimigos da paz e da ordem, seja engendrando, aconselhando ou mesmo forçando compromissos.
Mas o que a máxima autoridade faz e impõe, de modo determinante, contra a vigência dos sentimentos de reação e rancor — o que sempre faz, tão logo se sente forte o bastante —, é a instituição de um sistema de leis, a declaração imperativa sobre o que a seus olhos é permitido e justo, ou proibido e injusto: após a instituição da lei, ao tratar abusos e atos arbitrários de indivíduos e grupos como crime, como violação da lei, como revolta contra a autoridade mesma, ela desvia a atenção de seus subordinados do dano imediato causado por tais ofensas, e assim consegue afinal o oposto do que deseja a vingança, a qual enxerga e faz valer somente o ponto de vista do prejudicado —: daí em diante o olho é treinado para uma avaliação sempre mais impessoal do ato, e passa a considerar até mesmo o olhar do prejudicado (mas este por último, como já se observou). — Segue-se que “justo” e “injusto” passam a existir apenas a partir da instituição da lei (e não, como quer Dühring, a partir do ato ofensivo). Falar de justo e injusto em si é absurdo; em si, ofender, violentar, explorar, destruir não podem naturalmente ser algo “injusto”, na medida em que, na sua essência, isto é, em suas funções básicas, a vida atua ofendendo, violentando, explorando, destruindo, não podendo em absoluto ser concebida sem esse caráter. 
É preciso inclusive admitir algo ainda mais difícil: que, do mais alto ponto de vista biológico, os estados jurídicos não podem senão ser estados de exceção, enquanto restrições parciais da verdadeira vontade de vida, que busca o poder e a cujos fins gerais tais estados se subordinam como meios particulares: isto é, como meios de criar unidades de poder superiores. Uma ordem jurídica concebida como geral e soberana, não como meio para o uso na luta entre complexos de poder, mas como meio contra toda luta — mais ou menos segundo o clichê comunista de Dühring, de que toda vontade deve considerar toda outra vontade como igual —, seria um princípio hostil à vida, uma fator de dissolução e destruição do homem, um atentado ao futuro do homem, um sinal de cansaço, um caminho sinuoso para o nada. 

(Genealogia da Moral; Segunda Dissertação; Aforismo 11)


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sábado, 15 de março de 2014

Razões para um viver voluntário: ou A “direita esquerdista”


   


    Vasculhando alguns materiais pela rede, acabo encontrando um blog (http://legio-victrix.blogspot.com.br) cujo conteúdo é apresentado como sendo de uma vertente de direita dita “tradicionalista” e “conservadora-revolucionária”, que tem no agitador político russo, Aleksandr Dugin, um de seus principais representantes (assim como o mesmo é, também, representante daqueles barbudinhos bolcheviques da USP, que ano passado o convidaram para dar uma palestra no departamento de Geografia). Uma postagem em especial (http://legio-victrix.blogspot.com.br/2013/05/as-razoes-para-uma-morte-voluntaria.html) me chama a atenção, pois se trata de uma laudatória nota referente ao historiador francês Dominique Venner, que, sendo ligado à tal escola (em geral referida como “extrema-direita” pelo consenso editorial), recentemente teria lhe oferecido sua maior contribuição no campo das idéias ocas: matou-se com um tiro na boca ante o altar da Catedral de Notre-Dame, isso tudo alegadamente em favor dos gloriosos valores tradicionais de sua brava estirpe. A carta de suicídio é essa que se segue, reproduzida diretamente do blog em questão:

“Eu estou sadio em mente e corpo, e estou repleto de amor por minha esposa e filhos. Eu amo a vida e não espero nada senão a perpetuação de minha raça e minha mente. Porém, no entardecer de minha vida, me deparando com imensos perigos para minha pátria francesa e européia, sinto o dever de agir enquanto ainda tenho forças. Creio ser necessário me sacrificar para romper a letargia que nos empesteia. Eu entrego o que resta de vida em mim de modo a protestar e fundar. Eu escolho um local altamente simbólico, a Catedral de Notre Dame de Paris, que eu respeito e admiro: ela foi construída pelo gênio de meus ancestrais no local de cultos ainda mais antigos, reclamando nossas origens imemoriais.

Enquanto muitos homens são escravos de suas vidas, meu gesto corporifica uma ética de vontade. Eu me entrego à morte para despertar consciências adormecidas. Eu me rebelo contra o destino. Eu protesto contra venenos da alma e os desejos de indivíduos invasivos de destruir as âncoras de nossa identidade, incluindo a família, a base íntima de nossa civilização multimilenar. Enquanto eu defendo a identidade de todos os povos em seus lares, eu também me rebelo contra o crime da substituição de nosso povo.

O discurso dominante não pode deixar para trás suas ambigüidades tóxicas, e os europeus devem lidar com as conseqüências. Carecendo de uma religião identitária para nos ancorar, nós partilhamos de uma memória comum que volta até Homero, um repositório de todos os valores nos quais nosso futuro renascimento será fundado uma vez que rompamos com a metafísica do ilimitado, a fonte dolorosa de todos os excessos modernos.
Eu peço desculpas antecipadamente a qualquer um que venha a sofrer com a minha morte, primeiramente e mais importante a minha mulher, meus filhos e meus netos, bem como a meus amigos e seguidores. Mas uma vez, que a dor e o choque se dissipem, eu não duvido que eles compreenderão o significado de meu gesto e transcenderão seu pesar com orgulho. Eu espero que eles resistam juntos. Eles encontrarão em meus escritos recentes intimações e explicações de minhas ações.”

    Observando algumas outras postagens desse blog, tive a oportunidade de reforçar ainda mais as impressões que havia retido do debate entre o Aleksandr Dugin e o jornalista Olavo de Carvalho. O que se coloca nessa página como sendo uma autêntica voz da direita é, a bem da verdade, uma tremenda farsa. Trata-se, ao contrário, de um tipo de esquerda extremamente doentia e insana. Para isso levo em conta o critério mais abrangente que se deve utilizar para definir a esquerda em termos metafísicos: o profundo sentimento de rejeição à própria realidade como um todo. Qualquer manifestação dita gnóstica é um exemplo claro disso; e o professor Dugin se encaixa nesse quadro a partir do momento em que ele mesmo se confessa um gnóstico (ou como o próprio diz, um seguidor do ‘caminho da mão esquerda’, ou ‘caminho do vinho’, em contraste com o ‘caminho da mão direita’, ou ‘caminho do leite’, que ele despreza; veja-se suas próprias declarações aqui: http://www.gnosticliberationfront.com/Gnostics.htm).

   Este senhor suicida é só mais um gnóstico como o Dugin, compartilhando dos mesmos ideais mórbidos de purificação do espírito por meio da rejeição do corpo e da vida material (em vez de simplesmente admitir a matéria como uma instância inferior, aceitando-a, porém, como fundamental à plenitude da existência). Assim, por trás de seu discurso pretenso conservador, o que se esconde é nada mais que um fundo macabro de gnosticismo cátaro (condenado no período medieval como simples heresia), essencialmente racista e xenófobo, portanto anti-vida e anti-humanidade — pois vida e humanidade pressupõem sempre algum grau de mistura feliz entre os distintos povos da Terra —, por exemplo quando faz menção à sua suposta origem racial em gênios que teriam construído a catedral de Notre-Dame; ou quando diz que sua identidade étnica remonta a um passado imemorial, o qual na verdade é muitas vezes fabricado pela imaginação dessa gente, que se apropria de alguns fatos da história, conferindo-lhes, no entanto, um sentido completamente inverso à realidade (lembrando que nazistas e comunistas são experts nesse assunto, sempre fazendo referência a supostas comunidades primitivas de bon savages que viveriam em plena paz utópica até a chegada de malignos povos invasores).

    Não sou católico, nem mesmo cristão, e aliás também não me agrada o cristianismo como sistema doutrinal, mas justamente devido ao seu caráter patológico de abnegação da vida, condensado no símbolo-mor da morte, a cruz (†), mais apropriada para servir de sinal em lápides e catacumbas. Para mim, a civilização ocidental há milênios caminha com certa firmeza, e ainda pode-se dizer que se arrasta com algum ímpeto de resistência em tempos mais recentes, e isso apesar da infecção cristã, não por causa de seus símbolos e mitos caquéticos — esses que de certo modo foram todos convertidos em um sentido aristocrático e guerreiro durante a Idade Média, portanto contrários ao que indicaria aquela figura moribunda do mendigo voluntariamente crucificado (mais simpático aos olhos esquerdistas, que sempre glorificaram a imagem da miséria). De fato, são os valores morais de vitalidade guerreira e aristocrática, ressoando um antigo espírito greco-romano subsistente a meros sistemas simbólicos, e que por séculos revigoraram a mente arquetípica do Ocidente, que devem ser creditados como nossa real força civilizacional e preservados em nossa cultura tanto quanto em nosso âmago metafísico, não essa grosseira camada mitológica-cristã com que ela se revestiu por meras contingências circunstanciais históricas (e que, de qualquer forma, será transmudada noutra coisa em algum momento futuro) — leia-se: a herança maldita de uma Roma decadente, carcomida pela corrupção moral e espiritual.

    A atitude patética desse indivíduo (se é que se pode lhe referir com essa honra), Dominique Venner, reflete exatamente o espírito de fraqueza espiritual e baixeza moral contido no cristianismo (de um Jesus também suicida), ou no gnosticismo (que, a propósito, é realmente a verdadeira origem cristã), ou, enfim, para falar de maneira mais direta, no esquerdismo de modo geral. Dessa forma, nada mais apropriado do que se suicidar, e mais ainda, fazê-lo dentro de uma igreja cristã, insinuando até que ali seria um antigo sítio de culto pagão. Eu duvido muito que seja, e estou mais para a opinião de que a catedral de Notre-Dame foi simplesmente erguida sob a direção de mestres franco-maçônicos, não havendo qualquer prova de que o ponto de construção fosse anteriormente usado por druidas ou o que o valha; contudo, ainda que fosse — e daí? Dar cabo à própria vida, se eximindo assim de todos seus meios de ação concreta e consciente, apenas para se tornar símbolo de uma luta, e ainda por cima uma luta ancorada em justificativas mesquinhas, térreas, relativas a raça, nação, sangue, carne, matéria bruta...? Que coisa mais nojenta, bem própria de tipos doentios, como é essa esquerda ambígua, que tenta se apoderar de todos os títulos possíveis para perverte-los, até mesmos os de “direita” e “conservadorismo”, inclusive em construções retóricas esdrúxulas e paradoxais como “conservadorismo revolucionário” e “esquerda do trabalho e direita dos valores”. 

    Nós bem sabemos que esses revolucionários, coletivistas que são, que renunciam à vida e à própria individualidade, constituem uma alternativa tão saudável ao liberalismo/capitalismo sionista (outra praga que ganhou corpo na modernidade) quanto o marxismo puro e simples. Por isso mesmo é que essa “direita”, que se diz tradicionalista (mas que tradição? gnóstica? ah, sim...), “conservadora-revolucionária”, eurasiana (mais uma variação de nazismo), ou o que seja, mantém estreitos laços com a rede internacional do comunismo russo-chinês, exercendo por isso a faceta misticista/esotérica/ocultista da esquerda, enquanto o marxismo cumpre a função de ser a faceta prosaica/tecnocrática/ateísta — mas, de qualquer modo, sendo ambos essencialmente gnósticos e formando uma espécie de seres baixos que rejeitam esta vida e este mundo em nome de um ideal satânico (pois toda utopia é satânica). A prova dessa associação? Basta reparar que andam sempre de mãos dadas, sendo quase impossível, hoje, identificar nos meios da esquerda se fulano é um ateu materialista cuja crença maior não ultrapassa a imagem de prótons e elétrons ambulantes, ou se é um satanista que presta incondicional reverência a uma entidade obscura, incorporada por sociedades secretas que lutariam em prol da “evolução espiritual” e do “despertar da nova era” (discursos bem bonitinhos para servirem de fachada à edificação de um reino perverso).

    Mas sejamos claros e sucintos: o que deve definir a direita, acima de tudo, é o gosto pela vida, o gosto verdadeiro, sem ambigüidades, sem jogos retóricos esquisitos e sem atitudes sinistras de desespero; e o gosto pela clareza solar, olímpica, pela forma reta e cristalina de se expressar e de agir; enfim, a coerência do espírito. Que essa “direita” duguiniana seja então desmascarada e vista somente como mais uma das múltiplas variações do mal esquerdista que assola nosso mundo moderno.






quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Entrevista de Geraldo Vandré para a Globo News (parcial e comentada por mim em azul)

Entrevista de Geraldo Vandré para o jornalista Geneton Moraes Neto, no programa 'Dossiê' do canal Globo News, dia 12 de setembro de 2010. Essa é a primeira vez que Geraldo se manifesta em público depois de 37 anos.

 - O que aconteceu com Geraldo Vadré?
 - Ficou fora dos acontecimentos (risos). Quando, na juventude, terminei meu curso de Direito no Rio de Janeiro e fui me dedicar a uma carreira artística, já sabia que arte era cultura inútil. Mas, tempos depois, consegui me tornar mais inútil do que qualquer artista, porque hoje sou advogado num tempo sem lei. Quer coisa mais inútil que isso?
 - O fato de sua música 'Caminhando' ter se tornado uma espécie de hino de protesto provoca o que em você, hoje? Orgulho ou irritação?
 - Não tenho nada que corrigir do meu passado. Mas não concordo com essa denominação 'música de protesto'. Protesto é coisa de quem não tem poder. Eu não fazia protesto, eu fazia canções brasileiras.
 - Você teve uma divergência artística com os tropicalistas, entre eles Caetano Veloso e Gilberto Gil. Hoje, você ainda considera ruim a música que eles faziam na época?
 - Para essa pergunta, eu me lembro da resposta do próprio Gil, que uma vez me disse que fazia qualquer coisa e uma tinha que dar certo. (muda para um semblante mais sério) Eu não faço qualquer coisa.
 - Mas você mudou de opinião sobre os tropicalistas?
 - Parece que eles continuam na mesma.
 - Em que país vive Geraldo Vandré?
 - No Brasil que não está aqui. Ou melhor, Geraldo vive no Brasil, e até me atreveria a dizer que quem não vive no Brasil é a quase totalidade dos brasileiros.
 - Como é esse Brasil de Geraldo Vandré?
 - É o de antes, de quarenta anos atrás, quando não existia esse processo de massificação.
 - O Brasil de quarenta anos atrás era melhor do que o de hoje?
 - Olha, eu fazia música para aquele país.
 - E por que não fazer música para o Brasil de hoje?
 - Porque o que existe atualmente, como lhe falei, é cultura de massa, não é cultura artística brasileira. Para essa não há mais espaço.
 - Você se considera então uma espécie de exilado que vive dentro do Brasil?
 - É, eu me afastei das minhas atividades até 68 e não retornei a elas.
 - Você diria que o Brasil é um país ingrato?
 - Não, de forma alguma. Guerra é guerra. E eu não perdi (risos). Tem um poema do Gonçalves Dias, que eu lembro que meu pai me dizia, que é assim: 'Não chores, meu filho. Não chores que viver é lutar. A vida, meu filho, é combate, é luta renhida, que os fracos abate, e os fortes e bravos só pode exaltar.'
 - Quando você se lembra do maracanãzinho inteiro cantando 'Caminhando', que sentimento você tem?
 - Aquilo foi muito bonito. Pena que eu não possa ver o VT. Estão guardando e eu não sei pra quê. Eu quero ver. Está lá na estação, procure lá. (rindo e olhando para a câmera) Consegue o VT aí pra mim. Tem o Tom Jobim lá, é o mesmo VT. Sumiram com a minha parte. Por quê? 

 [Um aviso surge na tela: 'As imagens da participação de Vandré no Festival Internacional da Canção de 1968 não foram localizadas. Restou o áudio'. A fita é tocada e se pode ouvir a vaia do público ao jurado que premiara Chico Buarque e Tom Jobim, enquanto a maioria queria que o prêmio fosse para a música 'Caminhando'. Então se ouve a intromissão de Geraldo Vandré dizendo ao microfone para a platéia: "Gente, por favor. Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque de Hollanda merecem nosso respeito. A nossa função é fazer canções. A função de julgar, nesse instante, é do júri que ali está. Tem mais uma coisa só. A vida não se resume em festivais."]

 - Você tem saudade daquela época?
 - Saudades... (em tom de reflexão). É, um pouco, mas também tem tanta coisa pra fazer que não dá muito tempo de sentir saudades.
 - Você vive do que hoje? Recebe direitos autorais?
 - Não, nunca dependi de música para viver. Eu sou servidor público federal e hoje estou aposentado. Sobre os direitos autorais, eles pagam o que querem, e não existe controle ou critério sobre isso. Se nós tivéssemos direito de autor, nós teríamos os direitos conexos, os direitos de marcas, patentes, propriedade industrial, essas coisas todas. Mas aí nós não seríamos subdesenvolvidos, né? Esse assunto é muito complexo.
 - Se você fosse escrever um verbete no dicionário sobre o Geraldo Vandré, qual seria a primeira frase?
 - Criminoso (risada). Isso que você chama de governo, ou o que se apresenta como governo até hoje, me tem como anistiado. E anistia é para criminoso.
 - Você teria cometido o delito de opinião?
 - Não, eu acho que era subversão mesmo. (...) Mas as Forças Armadas propriamente ditas entenderam muito melhor do que a sociedade civil. Nunca tive problemas com as Forças Armadas. Sempre houve uma consideração e respeito entre nós.
 - Logo após voltar do exílio, por que você resolveu se afastar totalmente da carreira artística? Você foi maltratado fisicamente aqui?
 - Não existe nesse país que está aí um público...
 - (repórter interrompendo) Não, na época...
 - Já era assim, essa época ao qual você se refere já é o hoje que estou falando. Já era como está agora. Quando voltei do exílio, o Brasil já estava assim, num processo de massificação. O público para quem eu havia escrito e composto quatro anos e meio antes já não existia mais. E isso foi de mal a pior. (...) Pra você ter uma idéia, quando me mudei pra São Paulo em 1961, a cidade tinha 4 milhões de habitantes, hoje são 16 milhões de amontoados. Isso é um genocídio.
 - Quer dizer, a decisão de interromper a carreira então foi de certa forma um protesto contra o que você via como a massificação da sociedade brasileira?
 - Não, não! Foi por uma falta de motivo, uma falta de razão, falta de porquê. Protesto não.
 - Um outro grande nome que se celebrizou como opositor do regime militar na música brasileira foi Chico Buarque de Hollanda. Você acompanhou o que ele fez depois?
 - O Chico teve um caminho diferente do meu. Ele não chegou a parar, ele continuou produzindo muito. Eu estava fora. Quando retornei, fiz uma tentativa de apresentação num programa de televisão que não vem ao caso qual. Não gostei do que aconteceu ali, o jogo de pressões que havia. Eu recuei. E depois passou-se um tempo, aí a própria Globo queria fazer um festival e chegaram a me procurar. Mas eu não tinha interesse de participar.
 - Mas você acompanhou a produção de Chico Buarque de Hollanda? O que ela significa pra você?
 - Acho que ele é uma pessoa muito talentosa, uma pessoa muito importante, né? Um grande artista.
 - Você perdeu contato com todos os seus companheiros de geração na música?
 - Eu nunca fui muito enfronhado no meio artístico. Eu fazia minhas coisas e voltava para minhas atividades extra-musicais.
 - O fato de você ter composto uma música em homenagem às Forças Aéreas criou um certo espanto. Hoje você se hospeda em hotéis da Aeronáutica como este aqui. Nós estamos em um ambiente militar. Em que momento houve essa mudança?
 - Esse é relativamente um ambiente militar, quer dizer, isso aqui é um instituto de direito privado, né? Não houve mudança na minha postura. O que teve foi um reconhecimento de uma parte da sociedade (se referindo aos militares) que nunca tinha tido oportunidade de saber realmente quais eram minhas posições.
 - Hoje você nega que tenha sido em algum momento anti-militarista.
 - Nunca fui anti-militarista. Eu falei o que achava que tinha que dizer numa canção que foi cantada no Brasil para todo mundo, inclusive para os soldados.
 - O grande equívoco sobre Geraldo Vandré foi este de achar que você é anti-militarista?
 - Olha... eu acho que na realidade não houve um grande equívoco. Houve uma grande manipulação. Porque quanto mais proibido, mais sucesso fazia, mais se vendia, e menos conta se prestava. Essa é uma questão muito séria.
 - Você foi constrangido a gravar, em 1973, um depoimento em que negava que fosse um militante político. Qual foi o peso deste depoimento na decisão de interromper a carreira?
 - Eu nunca fui constrangido a declarar que não tive militância política, porque eu nunca tive militância política partidária. Eu nunca pertenci a nenhum partido e nunca fui um político profissional. (...) Eu me lembro de um professor de filosofia que dizia que o homem é um animal político (...) Então vamos estudar a diferença entre política (no sentido amplo) e eleição (política no sentido estrito, partidário)?
 - Que recordação você guarda desse depoimento? Você foi levado para uma sala do Aeroporto de Brasília e gravou um depoimento em que, de certa maneira, renegava... Você queria esclarecer esse assunto?
 - Eu não me lembro exatamente. Eu gostaria de ver a declaração... porque houve montagem. Era gravação e o que foi para o ar eu não sei.
 - Mas é que esse depoimento causou um espanto na época, porque era você negando a militância política.
 - Eu nunca fui um militante político.
 - Então negando o engajamento político.
 - Se engajamento político é pertencer a um partido, eu nunca fui engajado politicamente.
 - Mas você foi obrigado a gravar esse depoimento. Ou pelo menos fazia parte do acordo para voltar para o Brasil
 - Não, eles queriam que eu desse uma declaração e que dissesse... olha, eu não sei, eu não me lembro... eu disse algumas coisas lá que eu achei que podia dizer, e o que disse era verdade. Não disse nada que eu não tenha querido dizer.

 [O ponto de vista do entrevistador insiste na idéia de que Geraldo Vandré teria sido brutalmente violado pelos militares em seu direito civil de ir e vir em paz, sem a necessidade de dar qualquer satisfação ao governo brasileiro, mesmo em um momento conturbado no qual a direita e a esquerda digladiavam pelo poder, a primeira com o apoio internacional dos EUA, a segunda com o apoio internacional - vale frisar, também financeiro e militar - da URSS e aliados do eixo soviético, especialmente Cuba, que dava todo suporte para guerrilheiros tupiniquins, isso tudo com fins de implantar no Brasil o mesmo regime praticado nesses lugares. Com isso, o jornalista pinta uma versão favorável à esquerda, como se apenas a direita praticasse esse tipo de coerção de indivíduos e pressão ideológica. Além do quê, o condutor da entrevista quer forçar uma imagem de extrema crueldade e violência numa simples e típica medida protocolar que não envolvia nenhuma tortura ou agressão (algo que, em um mundo altamente burocratizado como o de hoje, não deveria surpreender ninguém mais), e que na verdade exigia apenas que Geraldo Vandré desse alguns esclarecimentos na posição de um exilado que retorna ao seu país após ter fugido, e de quem sempre houve suspeitas claras de estar cooperando com a esquerda, sendo essa, aliás, uma associação que o próprio Geraldo Vandré admite ser razoável, visto que cantava músicas de teor subversivo. Ironicamente, esse programa de TV torna-se tão coercivo na maneira de colher as informações convenientes para construir a tese pré-estabalecida que deseja transmitir ao seu público, torcendo o entrevistado de todas as formas retóricas possíveis, que se deixa de notar o óbvio: a atitude tendenciosa da Globo reflete perfeitamente o mesmo tipo de postura que os militares, pelas razões deles, tiveram com Geraldo Vandré naquela ocasião.]

 - Só pra esclarecer esse episódio, do depoimento que você gravou quando voltou do exílio. Você gravou o depoimento numa sala do Aeroporto de Brasília. Que lembranças exatamente você tem e quem pediu a você que gravasse esse depoimento? O DOPS, o Exército?
 - Aquelas declarações foram feitas para uma pessoa que se me apresentava como sendo da Polícia Federal.

 [Surge na tela um pequeno texto explicativo, alertando o telespectador de que o ano era da ditadura militar sob o governo de Médici, enquanto isso sons de marcha marcial podem ser ouvidas ao fundo.]

 - Eu cheguei aqui, no Brasil, no dia 14 de Julho. Dois meses depois eu apareço como se tivesse chegando à Brasília. Achei tudo muito manipulado, sabe? É essa história dos VT's. Normalmente nós temos essa doença (apontando ao redor de si em direção às câmeras que o filmam). Eu estou falando aqui, o que vai ser mostrado vai ser uma seleção feita pela estação. Não vai ser o que eu estou dizendo. Isso é muito sério.

 [Durante esse momento, a entrevista passa a ser filmada de dentro do estúdio de edição, a chamada ilha. As imagens de Geraldo Vandré são captadas por uma câmera que filma a entrevista sendo transmitida por vários monitores dentro desse estúdio, com os vários painéis de controle ao redor. Passa-se claramente, em um cínico tom de chacota e ameaça, a idéia de que o Gerado Vandré estaria paranóico, alucinando, pois isso que disse não foi censurado, como ele supostamente sugere que aconteceria. No entanto, a entrevista é de fato toda manipulada, só que de forma mais sutil e sorrateira.]

 - Mas esse depoimento, pra encerrar esse assunto, teve algum peso na sua decisão de interromper a carreira?
 -  Não, eu estava chegando, vendo como estavam as coisas, eu não tinha a menor noção da realidade. Precisava passar por um processo de adaptação.
 - Se você tivesse a chance de hoje se dirigir a uma platéia de jovens, o que diria?
 - Vocês vão ter que votar, né? Eu 'tou por fora.
 - Que papel você acha que vai caber a Geraldo Vandré na história da música popular brasileira moderna?
 - Nunca fiz esse tipo de avaliação.
 - Você se acha suficientemente reconhecido?
 - Eu obtive o reconhecimento que eu procurei.
 - Em algum momento você se arrepende de ter interrompido a carreira?
 - Não. Raramente eu me arrependo das coisas que faço. Calculo bem as coisas, reflito bem, meço bem antes. Quando faço, já é pra ficar feito mesmo. Não tem arrependimento.
 - É verdade que você ficou escondido na casa de Guimarães Rosa antes de ir para o exílio?
 - Depois que o tempo vai passando, as coisas vão ficando claras. A FAB (Força Aérea Brasileira) propriamente dita não tinha nada contra mim porque eu andava por aí, estava às mãos dela o tempo todo e nada me acontecia. Mas para evitar que qualquer guardinha da rua pudesse tirar um proveito da situação, porque também tinha bastante isso, eu preferi sair de circulação. Então durante um tempo eu estive na casa da mulher de Guimarães Rosa. 

 [Mais algumas notinhas históricas são mostradas na tela, contando que os mesmos agentes que prenderam Caetano Veloso e Gilberto Gil em dezembro de 1968, em São Paulo, tentaram prender Geraldo Vandré, o qual, porém, teria escapado graças à ajuda da mulher de Caetano. Insinua-se, assim, que Gil, Caetano e sua esposa foram os heróis da pátria, que inclusive ajudaram Vandré, e esse foi o grande traidor dos camaradas, pois sequer reconhece, hoje, o heroísmo deles. A marchinha militar de escárnio é ouvida ao fundo.]

 - Em que posição você escala a música 'Disparada' dentro de sua obra? Qual você acha que é a obra-prima de Geraldo Vandré?
 - Acho que todas são iguais. Isso da 'obra-prima' é uma questão de predileção do público, dos meios de comunicação e dos chamados formadores de opinião.
 - Mas você deve ter uma predileção pessoal. Qual é?
 - Não tenho. É tudo igual mesmo.
 - Para efeito de registro histórico, você, primeiro, não se considera anti-militarista; segundo, não foi maltratado fisicamente durante o regime militar; e em terceiro, você disse o que quis naquele depoimento que você foi forçado a gravar quando voltou do exílio.
 - E quarto, eu tenho uma canção para o Exército Azul (Força Aérea Brasileira) 
(Geraldo Vandré começa a dar risada e mostra sua carteira de sócio da FAB)
 - ...Isso aqui é uma coisa muito bonita, sabia?
 - A canção que você compôs?
 - Não, a aviação. A maior loucura do homem é voar.
 - Em que situação Geraldo Vandré voltaria a se apresentar hoje?
 - Depende de onde. Eu tenho uma programação para gravar num país de língua espanhola. Essa é minha prioridade. Depois que fizer isso, eu vou ver minha programação para o Brasil.
 - Você declarou certa vez: 'Geraldo Vandré não existe mais'.
 - Não, eu não declarei isso. Eu disse que não canto comercialmente no Brasil, só isso.

 [O programa se encerra com a voz do jornalista declarando: "A entrevista termina assim. O grande solitário da MBP se recolhe a um quarto do hotel do Clube da Aeronáutica. Sozinho, vai em companhia do único habitante do país que ele próprio criou." Enquanto isso são mostradas imagens em slow-motion de Geraldo de costas, indo embora, subindo uma escada. O clima melancólico dá a entender que o senhor enlouqueceu, perdeu a razão e não sabe mais o que fala: a imagem perfeita para corroborar a idéia de que a esquerda é que afinal está certa nessa história.]


E a Globo é de direita...


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A origem do fenômeno homossexual







    Um conceito-chave para compreendermos este assunto é o da distinção entre sujeito e objeto. Sujeito é, pois, aquilo com que nos identificamos e com que podemos assim ter uma relação de orgulho ou de auto-crítica; objeto é aquilo com que não nos identificamos, mas que olhamos com distância, e com o qual podemos manter portanto uma relação de desejo ou de desprezo. Como se vê, nessa definição há um elemento muito sutil de interpretação e, logo, uma tentadora brecha para os mais perigosos equívocos — e mesmo por apontar ao que talvez seja a fonte das grandes confusões humanas, ela mesma chega a parecer confusa em si.

    Entretanto, um modo bastante eficiente de verificarmos a validade deste conceito e assim notarmos com maior nitidez os contornos que separam o sujeito do objeto — e com isso testarmos, sobretudo, a enorme diferença entre orgulhar-se por identificação e atrair-se por desejo —, está na maneira como nos relacionamos com nossos próprios impulsos sexuais. 

    O homem íntegro e saudável não tem afinidade com o universo feminino, quer dizer, com a mulher enquanto gênero sexual, pois não há aqui um elo de identificação, não se tem um elemento de orgulho suscitado na consideração do sexo feminino, e não há sequer um sentimento de auto-crítica — afinal a mulher não é o sujeito do homem. Por outro lado, o homem atrai-se pela mulher, ele a deseja e admira profundamente, pois nesse caso há sim um elo de objetivação — ora, a fêmea é o objeto, o objetivo maior do macho. 

    E estes dois sentimentos, o orgulho e o desejo, são distintos o bastante para compreendermos que se tratam de duas funções afetivas totalmente opostas, embora sejam ao mesmo tempo duas maneiras de apreciação. O homem aprecia ser o homem, e aprecia ter a mulher, porque o ‘ser’ pressupõe uma relação com o sujeito, enquanto o ‘ter’, uma relação com o objeto. Evidentemente, a recíproca, do sentimento feminino para com o homem, só pode ser verdadeira, embora, ao invés de possuir, a mulher sinta-se ainda mais feliz sendo possuída.

    Podendo isso estar um pouco mais claro, é possível entender agora o caso inverso da distinção, que é quando ocorre a confusão, e o sentimento que deveria ser orgulho vira desejo, e vice-versa. É compreensível que isso possa ocorrer porque em todo o desejar há um movimento de aproximação entre o sujeito e o objeto, e portanto há o risco de uma colisão entre os dois: o que gera a confusão, isto é, a “co-fusão”, o fundir-se conjuntamente com algo (a própria etimologia da palavra já revela esse sentido). Isso pode acontecer sobretudo se o desejo é por demais intenso, porém a noção identitária, o orgulho, por assim dizer, que mantém o sujeito a uma distância conveniente do objeto, deixa de atuar sobre ele. Nesse modo pervertido de relação, o desejo funciona como uma força atrativa desimpedida de qualquer outra força contrária, levando o sujeito e se tornar o próprio objeto desejado — e o que antes era só desejo vem a ser também orgulho e identificação, porque não há mais linhas divisoras bem definidas que separem o sujeito do objeto. 

    Essa situação, remetendo a um clássico tema místico, é como a tentativa de atravessar o espelho e se transformar no próprio reflexo, o qual de certo modo é uma inversão da essência do sujeito concreto que o contempla (como, no caso, a mulher é uma inversão do homem). É como Narciso que, vidrado em sua própria imagem, perde seu ponto de referência subjetiva, que deveria mantê-lo firme em sua posição de sujeito real; e sem o ponto de apoio necessário para manter o equilíbrio interno, se precipita nas águas de Eco, sendo tragado para uma dimensão oculta além do reflexo: o reino da morte, em contraste com o reino da vida, esse que por sua vez se acha aquém daquele espectro fantasmagórico invertido que pode ser visto no espelho fluvial — então nosso Narciso se transmuda no objeto, isto é, em seu inverso, o ser irreal, sem vida, inerte na escuridão profunda da lagoa.

    Curiosamente irônico é, também, o fato de que o fenômeno narcisístico pode se referir ao homossexualismo tanto nesse sentido de um sujeito que se torna seu oposto (o objeto), como no sentido de uma auto-obsessão do próprio sujeito/objeto. A ambivalência nesse caso, embora pareça contraditória, é apenas o resultado óbvio da perda deste senso de distinção entre sujeito e objeto. Na confusão, o sujeito verdadeiro é tão auto-anulado em favor da mistura com o objeto, quanto até mesmo o objeto, ao se misturar com o sujeito, é rejeitado em sua forma pura, singular, distinta. 

    Como conseqüência, o homossexual fica tão preso e fundido a uma natureza oposta à sua que, paradoxalmente, ele se vê incapaz inclusive de apreciá-la da maneira correta, sadia, aquela que possibilita o compartilhamento entre duas naturezas diferentes e complementares; o homossexualismo é portanto, em termos de funcionalidade sexual, a forma mais filauciosa, auto-centrada, egoísta de relacionamento amoroso, porque implica que um gênero esteja bloqueado para o outro e fechado em si, e ainda por cima numa representação alucinatória que é alheia à sua original. 

    Enfim, o Narciso é tão obcecado consigo próprio que, buscando incessantemente sua imagem, se esquece porém de que ele, enquanto ente concreto, não é essa imagem, e de que aquilo que encontrará mergulhando no reflexo da água é de fato o inverso de si mesmo: o objeto — o demônio, o fantasma, a morte — que busca sugar a essência (a alma) do indivíduo.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Homem e Mulher - Parte 2: Natureza e cultura

   
    A cultura é algo que, para os tipos mais apegados ao plano da matéria, deve lutar com todas suas forças de auto-preservação não apenas para manter-se conservada — o que, deve-se dizer, é muito legítimo —, mas para permanecer absolutamente intocada, com seus símbolos sacrossantos e seus costumes puríssimos arraigados no solo de um povo; que o digam os ultra-nacionalistas de toda espécie, de esquerda, de direita, nazi-fascistas, socialistas ou sionistas. E, não obstante o desejo desses indivíduos supersticiosos e mesquinhos, ferrenhos defensores de suas preciosas “raízes” familiares, étnicas, raciais ou religiosas, a cultura fatalmente acaba tendo de mudar para adaptar-se à implacável dinâmica da história, a qual, sem cerimônia alguma, desde sempre promove choques entre civilizações, avanços técnicos, descobertas e progressos de toda sorte. E, por outro lado, a natureza, que periodicamente percebemos variar em suas múltiplas manifestações fenomênicas, na realidade jamais muda em sua essência — pois ela já se encontra num nível supratemporal, guardada por leis eternas, imutáveis e absolutas.

    Por essa linha de raciocínio podemos traçar uma diferença essencial entre o princípio masculino, que valoriza mais a natureza — tão segura de sua eternidade quanto livre para assumir formas distintas —, e o princípio feminino, apegado mais à cultura — essa tão inflexível para as trocas de influências estrangeiras quanto desengonçada demais para resistir ereta aos constantes sopros da substância transitória. Há, contudo, em certas correntes de pensamento esquerdistas e revolucionárias, tentativas de se estabelecer uma concepção completamente invertida da realidade, que associa mulher à natureza e homem à cultura. No caso, a confusão se dá por um tipo de imagem falsificada da natureza como um ponto de contato com o sagrado feminino, e da cultura como uma expressão do poder fálico masculino.

    Na realidade, se partimos apenas do ponto de vista da natureza como um todo, vemos que a parte que se refere ao que está mais alto, isto é, ao que é mais amplo e geral, se liga ao homem, pois é ele quem tem o domínio dos céus e que prefere estar no topo das montanhas enxergando sua paisagem de modo panorâmico; e que a porção da natureza referente ao que está mais embaixo, ou seja, ao que é mais reduzido e particular, está ligada à mulher, que tem o domínio da terra e que gosta mais de ficar nas planícies, segura e atenta aos detalhes que compõem suas paisagens mais próximas.

    Portanto, se o movimento que tende a uma abertura do que nos cerca caminha no sentido de uma natureza total e plena, que é o princípio masculino, aéreo, celestial, elevado, expansivo, então aquilo que tende a um movimento inverso, que comprime nossa visão, só pode nos levar assim ao sentido de uma simples cultura, isto é, de uma realidade artificial — pois que se trata de uma mera manifestação particularizada da natureza, restrita ao que é tocado pelas mãos humanas, e já não mais estendida a uma realidade cósmica, que ergue montanhas, cria planetas e regula sistemas intergalácticos inteiros.

    Ocorre porém que, como mencionei linhas atrás, esta imagem da grande metrópole é muitas vezes apontada como um elemento preponderantemente masculino, devido a suas altas estruturas e robustas construções, que de certo modo representam um símbolo de poder fálico; enquanto isso, a mulher estaria mais voltada para a natureza, simples, gentil, delicada, maternal. Esse ponto de vista ingênuo faz sentido sobretudo se consideramos o argumento, muito utilizado por feministas e gnósticos, de que a mulher é o verdadeiro princípio da criação natural, sendo o homem, nesse quadro de interpretação, um ser estéril, relegado ao papel de artífice emulador da natureza (portanto um tipo demiúrgico e negativamente patriarcal). Mas, como já explicado no texto anterior, essa visão somente se dá por um tipo de miopia intuitiva que aparta da natureza sua dimensão transcendental, do Espírito (‘espirar’, o sopro vital) que traz do infinito o verdadeiro impulso da criação, capaz de insuflar vida na matéria — como o próprio sêmen faz em relação ao óvulo; os raios solares, em relação à superfície terrestre; o plano metafísico, em relação ao físico; e enfim, o princípio masculino (de emanação), em relação ao feminino (de recepção). O homem é, pois, o verdadeiro agente criador.

    Com isso podemos entender que a cidade, bem como a cultura de modo geral, é representada de fato pelo princípio feminino, isso se a contrastamos com o campo ou com o meio natural, que é masculino. Mas como explicar, assim, as rígidas estruturas urbanas que remetem mais àquela idéia de um símbolo fálico tornado concreto pela disposição masculina de dominar a natureza? — podem argumentar, por exemplo, os gnósticos e feministas. E a resposta é: por mais que essas estruturas tomem a forma de um falo ou de qualquer coisa robusta e masculinizada, elas nunca passarão de objetos artificiais em relação às verdadeiras estruturas da natureza, muito mais vigorosas e imponentes. Um edifício, construído ao longo de décadas, jamais terá a dimensão de uma montanha, formada naturalmente num processo milenar — será no máximo um Empire State, ou seja, um arranha-céu, nunca como um Monte Everest, que não só arranha, mas rasga e abre todo o céu a sua volta. O humano, com sua cultura tecnológica, pode levar geringonças para além do espaço estratosférico e até alcançar alguns de nossos planetas vizinhos, mas a natureza já tem seus cometas vagando por toda a imensidão do cosmo — ora, a natureza já tem os próprios planetas, estrelas e galáxias. Como se vê, trata-se de uma comparação bastante injusta, porque é o artificial contra o natural.

    E se a afirmação de que a cidade (ou cultura) é representada pelo homem apóia-se sobre esta analogia entre a forma fálica das construções urbanas e um certo caráter masculino — no que inclusive se confessa que a imponência e a rigidez formam realmente um caráter masculino —, então nada mais justo do que considerar que as estruturas naturais, como as montanhas e as enormes formações rochosas em geral (que também são fálicas e ainda mais rígidas e imponentes que qualquer engenharia humana), são assim mais masculinas do que femininas, de modo que, seguindo esse mesmo raciocínio, o homem acaba por tender à natureza muito mais do que a mulher. 

    Por fim, a correlação mulher/natureza só funciona se trabalhamos com um sentido muito peculiar de natureza, relacionado a um tipo de ambiente fechado, obscuro e misterioso: densas florestas, matas selvagens e cavernas sombrias, portanto locais onde se acharia, conforme a crença gnóstica, o tal sagrado feminino. No entanto, não só esses ambientes constituem uma mera faceta da natureza, e aliás a mais particularizada e restrita, como é possível, também, traçar um paralelo entre essa mesma disposição feminina ao mistério enclausurado (como tipicamente simbolizado em deusas, desde as babilônicas até as ‘prostitutas sagradas’ do paganismo) e certos aspectos muito comuns e representativos da própria cidade: a reclusão em estabelecimentos fechados, os pubs quentes e festivos, a noite agitada e caótica, e enfim, o constante clima de emparedamento cavernoso e orgiástico típico da tradição dionisíaca.


    E, a propósito, a natureza, em seu sentido maior e integral, é contemplada de forma muito mais abrangente nesta imagem de um horizonte livre, aberto, de grande amplitude, desimpedido de edifícios, torres e muralhas, ou mesmo de copas fechadas, grutas claustrofóbicas e montes que cercam apenas os que se situam fixos nos vales e planícies. A natureza tanto cresce quanto aumentam os espaços, as alturas, e tudo que segue se elevando aos altos cumes, à visão larga, aos céus, ao infinito. É sobre as montanhas, é entre as estrelas, é nas nuvens e no sol que vemos a real natureza, portanto é no homem que o natural também se expressa com maior ênfase.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Nietzsche e os comunistas

   
   Como se sabe, Nietzsche tece uma feroz crítica ao racionalismo acachapante de nossa era, ao passo em que confere um grande valor aos instintos nobres da antigüidade (evidentemente, da forma como ele os entendia), reproduzindo aquele velho tema, até hoje discutido em vários círculos intelectuais, de que a razão seria o aspecto degenerativo da sociedade, em contraste com um tipo de instinto e de paixão revitalizadora da potência humana. Entretanto essa concepção só tem lugar na filosofia de Nietzsche na medida em que, erroneamente, ele (ou os românticos em geral) atribui à razão o caráter preponderante dos tipos fracos, baixos, sórdidos e afeminados.

   Tal confusão, no fundo, tem origem numa associação forçada que ele estabelece entre a razão — que seria o princípio apolíneo das formas bem definidas e proporcionais — e um tipo de lógica meramente calculista e pragmática, que, segundo seu sistema filosófico, por carecer de uma matriz de fogo e de poder de criação dionisíaco, nos conduziria a uma moral decadente, ancorada em justificações teoréticas que deslocam o peso real e imediato da existência para um plano distante, frio, ideal e, afinal de contas, falso. Exemplo desse tipo de moral decaída seria, assim, a dos escravos, espíritos débeis e submissos, que, por uma estratégia defensiva gerada pelo ressentimento aos seus senhores, se organizariam para infectá-los com uma razão mórbida e inibidora da coragem instintiva, no que estaria a oportunidade de virar o jogo, alçando os fracos a uma posição de vantagem; e o que resulta, invariavelmente, na própria decadência da sociedade como um todo.

   Esse argumento nietzscheano, embora fundamentado numa observação bastante compreensível do ponto de vista do sujeito nobre, vigoroso e saudável (com o qual, aliás, o próprio pensador alemão parece se identificar), possui suas razões mais profundas contaminadas por germes esteticistas, talvez oriundos do Sturm und Drang, que acabam por deturpar a verdadeira compreensão do problema.

   Pois, se atentamos ao discurso comunista — que para Nietzsche representa o moderno protótipo da mentalidade de escravo (e nesse ponto com toda razão) —, vemos que, de forma irônica, o mesmo tipo de racionalidade fria e calculista também é denunciado aqui como um atributo próprio dos comerciantes, industriais, donos do capital, enfim, os representantes da classe burguesa, considerada a emanação de todo o poder pós-feudal.

   Mas na verdade essas atribuições da razão como simples vícios modernos se baseiam apenas em um tipo de imagem rasa tanto dos burgueses quanto dos escravos, isso porque, ao considerar a racionalidade o caráter essencial dos dois, tais análises modernistas se mantêm restritas à camada mais aparente de ambos, ao menos dentro de um recorte parcial das situações observadas; no entanto, por trás e por baixo dessa imagem de racionalidade mesquinha e perversa (que afinal é só um tipo deturpado de racionalidade), ou seja, na parte menos visível da análise, se esconde o verdadeiro elemento preponderante desses tipos frios e calculistas, tão condenados por Nietzsche e pelos comunistas: trata-se do próprio instinto passional, cego, selvagem e impetuoso, a que esse mesmo Nietzsche atribui um valor de nobreza e do qual o comunistas pretende retirar uma parte fundamental de sua força. Está aí portanto um dos maiores equívocos filosóficos, e aliás dos mais trágicos em suas conseqüências no desenvolvimento da política e do pensamento modernos. 
   
   Ora, consideremos a idéia do típico sujeito psicopata, cuja imagem mais vívida toma forma plena no personagem Dr Hanniball Lecter, do famoso suspense ‘Silêncio dos Inocentes’. Tal personagem nos remete àquela impressão do indivíduo extremamente racional, que usa sua mente como uma espécie de máquina infalível para engendrar planos maquiavélicos e assim atingir seus objetivos gélidos, suas finalidades sombrias, que em geral envolvem a desgraça de terceiros. Mas vejam como não há nada menos racional, e pelo contrário, mais passional, mais instintivo, de um instinto altamente animalesco, do que estabelecer como meta o ato de canibalismo! Assim, para além daquela imagem do homem frio, silencioso, de expressão cínica, seguro de todos seus mais incríveis dotes intelectuais, o que se vê é precisamente o contrário dessa aparência: o homem-besta, consumido em chamas mentais, em urros assustadores, numa expressão monstruosa, se revolvendo em suas mais complexas e obscuras motivações passionais. Os instintos impulsivos são, dessa forma, a verdadeira tônica de sua vida.

   Nietzsche inverte a ordem de hierarquia entre a determinação racional do espírito (consciência/luz) e os seus impulsos instintivos (inconsciência/escuridão), o qual ele confunde com a nobre virtude dos senhores, sem perceber que esses sempre foram mais voltados à reflexão equilibrada, ao auto-domínio, à força desimpedida de reações inconscientes e entorpecidas da carne — compatíveis mais com o comportamento plebeu —, embora também não descartassem a naturalidade das emoções humanas e do extravasamento sentimental em ocasiões propícias, por exemplo, na arte e nos momentos de celebração. Todavia, a chama de Dionísio está constantemente consumindo a alma dos comunistas, que apóiam sobre o ímpeto revolucionário, levado adiante por uma massa furiosa e desgovernada, a sua maior aposta de vencer os inimigos de classe (a burguesia) e assim instaurar a ditadura do proletariado — o que no entanto não os impede de enxergar esse processo como uma mera dinâmica racionalmente bruta da natureza, como entendido, por exemplo, na dialética materialista de Marx. Porém o fato ainda é que os sujeitos que compõem os movimentos de esquerda são, a despeito desse pretenso racionalismo que exibem em suas teorias, os tipos mais dionisíacos, que idolatram a rebeldia, cultuam as drogas, se acham grandes artistas e vivem afogados num maremoto de emoções pueris — ou seja, os protótipos medíocres de um Dr Lecter, sujeito sensível, bem articulado na forma de justificar suas estranhas intenções, e que ao mesmo tempo age como uma fera sanguinolenta e descontrolada. Pois é a moral auto-flagelante do escravo que está embebida e intoxicada de vinho dionisíaco.

   Contudo, se Nietzsche ainda mantém uma certa fidelidade ao seu esquema — talvez por se tratar de um indivíduo que busca o comprometimento com um pensamento singular, diferindo portanto de um simples membro do rebanho que vai aderindo às tendências oscilatórias e inconstantes do comportamento coletivo —, os comunistas, por outro lado, tendem a alternar inconscientemente entre um desmedido apego às emoções mais histéricas e um exacerbado culto da razão mais estéril: e assim ele adquire aquela expressão do típico psicopata engenhoso, que à luz do dia trabalha em seu elegante gabinete concebendo toda sorte de fórmulas práticas, e nas sombras da noite, tal como o sr. Hyde do dr. Jekyll, reverte todos seus esforços meditativos numa explosão de brutalidade, revelando que seus sofisticados cálculos ocultavam nada mais que um desejo primordial de confrontação, sensualidade e entorpecimento.

   Pois é dessa maneira que se comporta o indivíduo moderno, sempre tão obcecado pelas necessidades materiais e pela incessante busca de prazeres terrenos, indivíduo esse que, assim, tem a razão absoluta como norte só enquanto ela serve aos desígnios de sua paixão desenfreadamente selvagem. E por isso toda a linguagem do burguês liberal-progressista ou do comunista revolucionário, embora seja carregada de uma impenetrável terminologia utilitarista que parece apontar para uma abordagem completamente racional do universo, no fundo encobre, com sua tediosa afetação de pragmatismo, apenas um sentido degenerado da vida, pois que desprovido de espiritualidade e de ligação com o transcendente.

   E deste modo, encarando o mundo somente a partir das necessidades biológicas, primitivas e materiais, tal tipo acaba por se reduzir a uma imagem grotesca que fatalmente irá refletir o caráter inferior de um animal, o qual nada faz além de seguir seus instintos carnais, sejam esses os de copular, chafurdar, se esbaldar no sangue de suas presas e expelir urina em troncos de árvore — ou os de expandir os mercados, maximizar os lucros financeiros, lutar pelos interesses de sua classe e atender às necessidades “reais” de uma sociedade burocratizada —; enfim, um animal que, contudo, nunca é capaz de se virar para o céu da alma e ver que a existência possui um propósito maior, divino e glorioso, cuja compreensão é imprescindível inclusive à própria continuidade da vida, aqui e além.

domingo, 27 de outubro de 2013

Homem e Mulher



   Se a figura da mulher é identificada simbolicamente com a Terra — Mãe-Terra, Mãe-Natureza, Gaia e deusas da fertilidade em geral —, tendo assim seu domínio sobre o Mundo Inferior da Matéria (que se relaciona etimologicamente com as palavras ‘materia’, ‘madeira ‘mater’, ‘mother’, ‘madre’, ‘matrix’), o homem, seu complemento essencial, só pode ser então, por analogia, o Céu (‘celestial’, ‘cœlestium’ ‘cælestis’, ‘cælum’, que numa raiz indo-européia mais antiga se refere ao sentido de brilho e claridade); e portanto ele reina sobre o Mundo Superior do Espírito (‘spiritus’, ‘spirare’, ‘espirar’, trazendo esta idéia da alma como o sopro divino que confere vida à matéria moldada como simples plataforma corporal para a consciência), ou ainda sobre o Mundo Superior da Mente (‘mentis’, ‘mens’, ‘men’, enfim, a alma, a inteligência).

   Contudo a vida, compreendida de maneira mais ampla e integrada, está expressa simultaneamente em ambos os elementos, razão pela qual a consciência — a máxima manifestação da realidade — só existe numa síntese entre os planos objetivo (matéria) e subjetivo (espírito). Numa via contrária de análise, podemos entender a morte justamente como a separação destas duas instâncias, a física e a metafísica; e assim o mundo material (o princípio feminino) acaba por cobrar aquilo que lhe pertence, ou seja, o corpo, que desce para as entranhas da terra onde esse terá seu fim decompondo-se num árduo processo temporal; ao passo que o mundo espiritual (o princípio masculino) reclama apenas aquilo que é digno de sua grandeza, isto é, a alma, que, após a morte do indivíduo virtuoso, é dito que sobe aos céus para descansar em paz na eternidade.

   Entretanto a alma, considerada em si mesma, nada mais é do que uma abstração da consciência incorpórea, incapaz de existir senão num mundo ideal, governado pelas formas perfeitamente regulares e pelas leis da eterna harmonia. Já o corpo, por si só, é o objeto inanimado, a matéria bruta, sem vida, submetida unicamente às leis entrópicas da pura inércia física. Portanto o espírito e o corpo indicam a morte somente quando separados um do outro. E com isso temos, de um lado, a imagem daquele estranho espectro plasmático vagando na imensidão de uma esfera onírica (o típico sonho platônico, herdado pelos gnósticos), e por outro, a imagem de um corpo inerte e frio, denunciando toda a impiedosa rudeza deste mundo. Afinal, as duas imagens se referem ao lado sombrio da existência, sendo por isso geralmente utilizadas como temas básicos de contos de terror — uma porque remete a fantasmas, vultos e efeitos paranormais, a outra porque horroriza com a nudez da carne exposta, podre e dilacerada.

   Mas pensando agora no poder da criação, vemos que a mulher é responsável por parir os filhos do homem. Desse modo, há inclusive uma tendência, sobretudo em meios feministas, de se considerar a mulher como o princípio gerador da vida. Trata-se, evidentemente, de uma visão encurtada do cosmo, em plena sintonia, aliás, com todo tipo de visão fisicalista e materialista que aparta do universo sua dimensão metafísica, no qual assim a matéria seria responsável por sua própria geração espontânea: o ‘Big Bang’ é encarado, dentro dessa limitada perspectiva, como uma espécie de parto cósmico que não exigiria nenhum ato primário de fecundação, isto é, nenhuma ordem divina para lhe dar o impulso criativo primordial. No entanto esse primeiro impulso é justamente a força que vem do infinito (o Céu), no sentido de um plano superior, de maior elevação da consciência: o próprio Espírito.

   Assim também se dá a relação entre o homem e a mulher: essa não pode gerar a vida por conta própria. Ela necessita de todos os atributos superiores do homem; pois esse é quem geralmente fica incumbido da tarefa de conquistar sua parceira, e que assim, a princípio, deve impor sua força, sua vontade e sua inteligência para que o fim da geração seja consumado; e até mesmo na própria cópula, quem fornece maior energia é o homem, possuidor do instrumento ativo. O homem é, dessa forma, a semente primordial (organicamente incorporada no próprio sêmen), o sujeito (consciência) da ação, o fundamento/firmamento da vida, enfim, o ponto de partida da existência humana, o que se relaciona com o Espírito, o Deus Criador, o Céu de Luz, que é o ponto de partida da existência universal. Nesse sentido, a mulher é a finalidade da vida, o objeto da ação (seu próprio aparelho reprodutor em forma de alvo nos revela essa sua disposição à passividade), o objetivo da existência humana, tudo isso relacionado à Matéria, à Terra, à Deusa Fértil.

   Pois entendemos que a mulher oferece a condição material em que se pode desenvolver a vida, e por isso o óvulo (oval como o próprio globo terrestre), que de início não passa de um mero conglomerado biomolecular ocioso, é o que, ao longo da gestação, vai tomando a forma do ser vivo. Mas isso apenas a partir do recebimento da semente vital, o conteúdo, que é a luz, o impulso enérgico, a inteligência, a alma, o espírito etc., que deve despertar o corpo (matéria) para a vida.

   A própria vida na Terra só foi possível graças à luz do Sol (mais uma vez, o Céu luminoso, que lança seus raios solares como os semens ejetados em direção ao óvulo). Em suma, o princípio da existência se dá sempre por este mecanismo de emanação e recepção: o princípio masculino e o feminino, respectivamente. Por isso o homem é, em relação à mulher, essencialmente ativo, dado às asperezas, ao frio e ao desafio, enquanto ela é passiva, sentindo tanta necessidade de conforto, calor e proteção.

   Em outros níveis simbólicos, relacionados com essa mesma situação discutida, notamos que o homem está representado pelo elemento Fogo (ou Ar), que aquece e ilumina como o Sol contemplado nas alturas do céu diurno, que é quente como o corpo livre e em alta atividade, que queima como todo processo energético, e que, enfim, traz o calor tão almejado pelas mulheres. Enquanto isso, a mulher tem como símbolo o elemento Terra (ou Água), que é frio e amoldável como o barro úmido, propício para o trabalho de modelagem, e que também é escuro, enigmático e perigoso como toda floresta, selva ou oceano em que o homem busca se lançar a fim de atender às suas ambições de desbravamento e conquista pessoal — pois ele sente menos sede de guardar ou de usufruir a riqueza produzida do que de criar e explorar o novo, assim tendo como verdadeiro prêmio a consciência de seu enorme poder de engendramento.


   Por fim, constatamos que o homem foi feito para a mulher e a mulher, para o homem, pois o caráter dos dois se complementa, as disposições de um encontram-se direcionadas às do outro, e os desejos de ambos são mutuamente satisfeitos, formando assim um uno coeso de existência, que é a síntese dos dois princípios opostos — da mesma forma como a realidade total do universo só é possível na relação entre matéria e espírito.