sexta-feira, 5 de junho de 2015

O problema do gayzismo



   Não existe, ainda, um estudo conclusivo informando quais são as específicas combinações de influências — entre as quais, poderíamos citar a pré-disposição genética, o meio social e familiar de formação do indivíduo, o caráter particular que cada um desenvolve através de suas próprias decisões morais e reflexões internas — que atuariam como os verdadeiros fatores a desencadear o homossexualismo numa pessoa. 

   Contudo, o fato é que o homossexualismo se trata de um comportamento desviante da natureza humana. E aqui se deve esclarecer o seguinte: para que um comportamento seja tido como contrário à natureza, esse não deve ser determinado pela simples impossibilidade de ocorrer, caso contrário teríamos de aceitar como naturais as mais torpes práticas humanas verificadas na sociedade, como o estupro, a pedofilia, a necrofilia, o suicídio, a auto-flagelação etc., sem jamais oferecer qualquer oposição a elas, pois todas fazem parte do repertório possível de práticas humanas, ou seja, podem de fato ocorrer (obs.: não estou aqui equiparando a gravidade de qualquer um desses desvios, e sim mostrando que, do ponto de vista puramente lógico-discursivo, o argumento de que o homossexualismo é natural porque sempre existiu é de uma extrema imbecilidade e acaba até abrindo precedente para aceitarmos os crimes mais hediondos, os quais também sempre existiram). Assim, quando se diz que o homossexualismo é um desvio da natureza humana é evidente — é óbvio, é ululante! — que a afirmação não se deve à impossibilidade de esse comportamento ocorrer (pois, afinal, se esse fosse o caso, ninguém estaria preocupado com isso, não é?), e sim à razão de que o homossexualismo contraria uma tendência comportamental que todos podem entender como naturalmente benéfica à vida, que é a atração biológica entre indivíduos de gêneros sexuais opostos com a finalidade de reprodução e, assim, perpetuação da espécie (além do prazer gerado no processo, que apenas confirma uma natureza sadia). Portanto, o termo ‘natural’, aqui, é empregado no mesmo sentido de normal e saudável, por atender a uma norma que favorece a vida e, por conseguinte, a natureza enquanto uma coisa boa, agradável, mas também funcional e necessária.

   Um outro argumento, também bastante utilizado por gayzistas a fim de apontar uma suposta injustiça na crítica feita a eles, é de que o homossexual, diferente do ladrão ou do estuprador, não estaria interferindo diretamente na vida de ninguém, e que ele nada mais faria que manter relações sexuais com outro(s) indivíduo(s) interessado(s) e de pleno acordo com uma simples prática sexual, sem a intenção, assim, de incomodar ou ofender qualquer pessoa que seja. Mas será que esse argumento basta para justificar como injusta uma crítica que, diferente do que faz crer uma certa propaganda insistentemente martelada na cabeça de todos, jamais teve como real objetivo disseminar ódio, atos persecutórios ou desejos de exclusão de qualquer indivíduo pelo único e simples motivo de esse apresentar um desvio (já que afinal todo mundo está sujeito a apresentar alguma espécie de desvio); uma crítica que na verdade busca tão somente ater–se a um aspecto do comportamento humano tomado como um traço desfavorável ao instinto vital de perpetuação da vida? 

   E será mesmo que esses gayzistas não interferem na vida de ninguém? Pois, como se percebe, diariamente somos bombardeados com uma exposição maciça de uma determinada cultura atrelada ao homossexualismo — na qual orbita um conjunto próprio e bem conhecido de símbolos, valores, práticas, cacoetes, trejeitos, reações etc. — que constitui, dessa forma, razão suficiente para entendermos o fenômeno do gayzismo (mais do que o homossexualismo em si) não apenas como uma prática sexual privada, mas como um tipo de influência no âmbito direto da sociedade, visto que toda manifestação cultural implica, por definição, em um padrão de comportamento que engloba uma atmosfera social. Portanto o que está em jogo é muito mais do que uma prática que começa e termina no relacionamento afetivo entre indivíduos homossexuais isolados entre quatro paredes; o que está realmente em jogo é um movimento que tenta impor um certo tipo de visão à sociedade como um todo; portanto, é óbvio, interferindo na vida alheia.

   Pois é muito importante salientar que a crítica aqui se passa em dois níveis, ambos bem justificados:

   1-) O problema do homossexualismo enquanto um simples traço de comportamento humano contrário à natureza, ou seja, prejudicial ao instinto de preservação da vida, e que, assim, se pode dizer que se trata de uma anomalia sexual. Perceba-se que não há aqui nenhuma intenção de perseguir ninguém, nem de reverter o comportamento de ninguém (embora, se esse é o desejo do indivíduo, então ele deve ter todo o direito a isso). Aqui só estamos discutindo um aspecto estritamente técnico de uma questão, procurando mostrar um problema aliás um tanto óbvio.

   2-) O problema do gayzismo, isto é, da visão ideológica que busca impor À SOCIEDADE (portanto interferindo no espaço coletivo, público) a idéia de que o homossexualismo não é um traço desviante, e que por isso ele deve ser não só tolerado, mas admitido como um comportamento padrão, às vezes até desejável. É evidente que, nesse caso, estamos lidando com um tipo de problema que ressoa no âmbito de toda a sociedade, chegando até às instâncias governamentais, uma vez que se liga a interesses de uma gama de setores degenerados, sejam partidos corruptos de esquerda, programas políticos oportunistas, organizações criminosas etc. Isso tudo, é claro, fatalmente irá se refletir de modo pernicioso no tipo de ambiente cultural e político em que vivemos. 


   E, afinal, se temos uma sociedade constituída por pessoas incapazes de admitir alguns fatos simples da natureza e da realidade que compõe sua própria estrutura básica de formação humana (no caso, o fato de que o homossexualismo consiste numa mera anomalia sexual), seja  devido aos impulsos mais baixos de suas necessidades libidinosas que não podem sequer ser questionadas, seja devido ao receio covarde de serem enquadradas em estereótipos antipáticos e terem assim seu acesso barrado em determinadas rodas sociais mais “popularescas” e “despojadas”, então essas pessoas pusilânimes estão fadadas a contemplar, mais cedo ou mais tarde, a destruição de sua própria sociedade, ficando à mercê de governos autoritários que, ironicamente, só as terão conduzido como massa de manobra para logo em seguida descartá-las como papel higiênico usado.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Análise do artigo de Sherry B. Ortner, ‘Is Female to Male as Nature is to Culture?’ - Excerto






   “Uma segunda dimensão, intimamente relacionada com essa, parece ser a relativa subjetividade vs. relativa objetividade: Chodorow cita o estudo de Carlson (1971), o qual conclui que 'machos representam experiências de si, de outros, do espaço e do tempo por meios individualistas, objetivos e distanciados, enquanto as fêmeas representam experiências por meios relativamente interpessoais, subjetivos e imediatos'. Embora esse e outros estudos tenham sido feitos em sociedades ocidentais, Chodorow vê seus achados sobre as diferenças entre personalidade de macho e de fêmea como 'diferenças gerais e quase universais' — a grosso modo, homens são mais objetivos e inclinados a se relacionar em termos de categorias relativamente abstratas, e mulheres são mais subjetivas e inclinadas a se relacionar em termos de fenômenos relativamente concretos.”


   Antes de tudo, é necessário esclarecer que estas palavras, ‘individualista’, ‘objetivo’, ‘interpessoal’ e ‘subjetivo’, para que sejam aqui entendidas no sentido adotado pela autora, devem então ser decodificadas a partir do contexto por ela utilizado. Em um contexto carregado de concepções feministas (portanto esquerdistas), como é o caso, é certo que, diferente do sentido geral que se costuma empregar para essas palavras — sentido cuja origem em nosso vocabulário usual, ainda que leve a concepções também equivocadas, de qualquer forma aponta para outros caminhos semânticos —, elas estão transmitindo uma idéia muito específica e tendenciosa.

   Por exemplo, quando é dito, citando-se Chodorow e Carlson, que os homens “representam experiências por meios relativamente individualistas e objetivos” e as mulheres, “por meios interpessoais e subjetivos”, os sentidos de ‘individualista’ e ‘objetivo’, aqui, têm como intuito a atribuição de um caráter pejorativo ao homem, enquanto os sentidos de ‘interpessoal’ e ‘subjetivo’, um caráter favorável à mulher.

   Assim, de acordo com a leitura enviesada da autora, a relação que o homem estabelece com o âmbito externo (público) implica que ele seja mais frio, distante, impessoal, lidando basicamente com categorias abstratas — e por isso é mais “objetivo”. E na relação com o âmbito interno (particular), ele tende a ser mais egoísta, e por isso é “individualista” – isto é, ele não pensa tanto nas outras pessoas, mas quase somente em si mesmo, na própria individualidade.

   A mulher, em favorável contraste, teria então um caráter positivo em ambas as posições (na relação com os âmbitos externo e interno, ou seja, tanto no público quanto no particular) — pois note-se que, nesse ponto, uma das preocupações sutis da autora é, na verdade, ignorar sorrateiramente a própria simetria que ela havia considerado, de homem-público-externo vs. mulher-particular-interno, e já mostrar que a mulher é superior até mesmo no âmbito externo, o que nessa nova relação simétrica faz com que o homem também adquira uma dimensão interna, só que igualmente inferiorizada. Assim, na relação com o âmbito externo (público), a visão da mulher é interpessoal, pois de maneira distinta do homem — que é individualista —, ela tem maior consideração pelas outras pessoas, ou seja, é mais generosa. E na relação com o âmbito interno (particular), é mais subjetiva, já que diferentemente do homem — que é mais objetivo —, ela não encara as coisas, as pessoas e os sentimentos em termos distanciados de categorias abstratas, frias e impessoais, mas por um vínculo próximo e direto estabelecido a partir de si própria, enquanto sujeito concreto, real, caloroso, afetuoso e meigo.

   *[note-se, também, que à negativa relação masculina com o âmbito externo (a objetividade na esfera pública) se contrapõe a positiva relação feminina com o âmbito interno (a subjetividade na esfera particular); e à negativa relação masculina com o âmbito interno (o individualismo na esfera particular) se contrapõe a positiva relação feminina com o âmbito externo (a visão interpessoal na esfera pública). Esse foi, aparentemente, o artifício encontrado pela autora — evocando os estudos de Chodorow e de Carlson — a fim de provar sua tese; e embora a relação simétrica seja em parte desrespeitada — pois temos inversões entre as comparações dos termos —, o fato de as inversões ocorrerem simetricamente nos dois casos, de forma permutada, a torna relativamente aceitável, ou ao menos possível de ser analisada.]

   Vê-se, portanto, que nesse sutil jogo de palavras o que se tem, de maneira meio camuflada, é a intenção de caracterizar o homem negativamente, e a mulher positivamente. Contudo, é possível também abstrair dessas palavras escolhidas, e da compreensão sugerida na leitura delas feita nesse enquadramento específico, um sentido mais amplo e geral — no qual aliás a própria autora precisou se fixar antes de empreender a sobreposição ideológica do pretendido sentido feminista —, e que, assim, fornecerá uma idéia um pouco mais clara e isenta acerca das razões para que o homem seja, em geral, considerado o gênero “objetivo e individualista”, e a mulher o gênero “subjetivo e interpessoal”.

   Agora podemos interpretar o sentido de objetividade como uma disposição para manter a atenção no objeto, isto é, no outro; e, do mesmo modo, subjetividade como uma disposição para manter a atenção no “sujeito”, ou melhor, em si mesmo enquanto ‘objeto subjetivado’ (pois dentro deste fenômeno, que já é a princípio de objetivação, esse “sujeito” consiste muito mais no objeto do outro). Assim, é possível compreender por que o homem é mais objetivo e a mulher mais subjetiva. Ora, o homem, sendo mais seguro de quem é, daquilo que representa seu próprio ‘sujeito’, atenta-se muito mais ao objeto (o objetivo), já que atingi-lo é o que garantirá seu sucesso. Enquanto isso, a mulher, sendo ela própria este objeto/objetivo da existência, deve colocar uma atenção maior em si mesma, com o intuito de se tornar atrativa ao homem, pois seu sucesso não está tanto em alcançar algo, mas em ser alcançada pelo outro (no caso, pelo macho).

   Além disso, como propõe o texto de Ortner, o homem seria mais “individualista”, enquanto a mulher seria mais “interpessoalista” — ou, em um termo menos eufemístico, “coletivista”. Pois o homem, sendo o sujeito da existência, é, desse modo, aquele que busca tomar para si o objeto; enquanto a mulher, sendo o próprio objeto da existência, é quem, nessa relação, acaba tendo que ceder e se doar mais (em vez de se impor e conquistar, como prefere o homem). Isso se reflete no caráter de ambos: o homem é mais individualista, nesse sentido, pois costuma considerar antes a própria situação; já a mulher, em compensação, costuma considerar primeiro o outro — e isso faz com que ela seja mais “coletivista”, isto é, mais preocupada com a situação alheia (o “coletivo”).

   Desse modo, vemos que o caráter “individualista e objetivo” do homem, assim como o caráter “interpessoal e subjetivo” da mulher, pouquíssimo têm a ver com o sentido simplório de “frieza” vs. “calor” (menos ainda de “mediado” vs. “imediato”, como fica provado na outra sessão) no trato com as coisas, sentimentos e pessoas, mas com o sentido de função exercida no quadro maior de interação da existência humana (refletindo a própria existência cósmica como um todo). 

   O homem é “individualista” não porque seja necessariamente mais egoísta, mesquinho ou ganancioso, mas pelo fato de que manter em si o ponto de partida dos acontecimentos constitui uma das funções primárias da realidade, e uma das condições básicas da vida. E é objetivo não porque tenda a se relacionar de modo friamente distanciado e abstrativo, mas porque cercar um objeto e ter uma abertura maior da visão também se liga a um aspecto primordial do universo (o qual se identifica com o infinito expandido, que engloba em vez de ser englobado).

   Já em se tratando da mulher, podemos dizer que ela é “subjetiva” não porque encare as relações de modo mais concreto, pessoal, caloroso, mas pelo fato de que estar cercada por algo maior e ter uma percepção mais reduzida, direcionada ao âmbito interno e às proximidades de si, constitui um aspecto mais particularizado e comprimido do universo, e uma das funções secundárias da existência, da vida — a função que é, pois, do objeto, o qual em sua própria perspectiva pode se converter em sujeito (ou, como sugeri, em ‘objeto subjetivado’); pelo que também se explica o fato de aquilo que é ‘subjetivo’ aparecer sempre, na nossa habitual linguagem, como mera reação ao que é ‘objetivo’, ainda que o sujeito seja mais importante que o objeto: é que, no caso de tal terminologia comumente difundida, vemos ocorrer aí uma inversão implícita do valor semântico de ambos; isto é, a objetividade, no fundo, refere-se ao sujeito (pois o sujeito é quem pode ser objetivo), e a subjetividade ao objeto (em simples reação simétrica àquele). E tem a mulher uma visão interpessoal — ou coletivista — não porque seja necessariamente mais generosa, mas porque essa se liga, também, às funções básicas do objeto: sua própria constituição física e psíquica encontra-se, afinal, posicionalmente oferecida ao outro, ao macho, ao verdadeiro sujeito da existência. 


   Em suma, a existência da mulher é uma reação necessária à existência do homem (sendo esse, afinal, o impulso de ação, o princípio afirmativo). É preciso ressaltar, também, que somente em relação a um senso moral decaído a idéia de ceder, se doar, se sacrificar e pensar primeiro no outro, é vista como superior à idéia de conquistar, se impor, se afirmar e pensar primeiro em si. A luta pela vida tem provado qual das duas disposições morais é mais relevante (e não a única necessária), de modo que inverter esse sistema de valores em favor do sacrifício, ainda que pareça poética e religiosamente “belo”, “redentor”, “nobre” — e o apelo estético-religioso a essas emoções adocicadas não passa, é claro, de sedução sentimental —, no fim apenas nos aproxima da morte (como um afeminado Jesus Cristo abatido na cruz, que é a própria morte fantasiada de vida, em imagens ambíguas e promessas ilusórias).

sábado, 21 de março de 2015

O Paradoxo do Cristianismo


Analisemos, com base nesse vídeo [do link de youtube acima, pois não foi possível postar o vídeo diretamente devido a falhas do Blogspot, o qual também tem dificultado a edição do texto], a retórica de embuste utilizada por este sujeito, Caio Fábio: é de se notar que toda sua “argumentação” apóia-se quase que unicamente em um estilo “poético” de sermão religioso, cujo poder de convencimento recai muito mais na sonora fluência das palavras do que na rigidez dos princípios lógicos em que se deve assentar um raciocínio legitimamente verídico. Pois não é à toa que, com freqüência, vemos esse tipo de retórica surgir de momentos que sugerem estados de transe, e em que se percebe por parte do orador uma inconstante oscilação entre falas mansas, sonsas e teatrais, e tons mais extasiados, eufóricos, como os de um pai de santo manifestado. Além disso, um tipo de raciocínio no qual se alardeia — com um petulante ar de satisfação no próprio erro! — o seu fundamento maior na idéia mesma de absurdo (isto é, na renúncia à lógica, à razão... pois isso que significa absurdo) jamais deveria ter a pretensão de possuir qualquer sentido de veracidade... talvez a de soar esteticamente atrativo ou curioso.

Mas vamos ao problema em si: o paradoxo do cristianismo, como se verifica em Caio Fábio. Esse pode ser posto nos seguintes termos: 

1. Se Cristo expressa apenas um espécie de salvação abstrata, metafórica, que qualquer indivíduo poderia atingir até por meio de uma simples “voz doce no coração”, “uma sabedoria sem nome nem apelido” (ou seja, sem o conhecimento específico das Escrituras — pois é a isso que Caio Fábio está se referindo no fundo, mesmo com todo o cuidado eufemístico de sua linguagem adocicada), então Jesus não pode ser considerado ‘o’ salvador, mas no máximo uma expressão — diga-se, historicamente bastante tardia e repleta de falhas — de concepções antiquíssimas e ainda melhor elaboradas por profetas, poetas e pensadores que nos legaram mensagens muito similares desde vários séculos antes de Jesus (coisas relativas a espiritualidade, amor, humildade, sacrifício etc.)

2. Se Cristo não é somente um eco dessas mensagens bonitinhas, acessíveis dentro de muitos contextos diferentes, mas a única e exclusiva via de salvação (como aliás as próprias Escrituras parecem não deixar muitas dúvidas a respeito), então não é qualquer indivíduo que pode ser salvo simplesmente ouvindo uma “voz suave no peito” ao pressentir o conteúdo simbólico do cristianismo em qualquer imagem vaga e abstrata, mas os que de fato têm acesso a essa via especificamente cristã por estarem em contato direto com a pregação do evangelho, e que, em última instância, foram realmente eleitos por Deus (ainda que num plano da eternidade) para pertencerem a uma determinada cultura em que o cristianismo está presente.

E dessa forma:

1. No primeiro caso, como vemos, Cristo torna-se um tanto dispensável, pois outras vias, talvez até mais eficazes e interessantes, já haviam sido abertas e se fariam acessíveis sem a necessidade da específica mensagem cristã. E, aliás, a própria estória de Jesus torna-se, desse modo, uma contradição, visto que o sacrifício perde todo seu sentido religioso mais profundo (e — ressalta-se — apenas por cuja aceitação, segundo os evangelhos, a salvação seria possível).

2. Mas — no segundo caso —, se não importa somente a mensagem bonitinha e as vagas imagens do coração que coincidiriam com as mensagens cristãs, e que assim poderiam surgir até na mente de um aborígene em abstrações de ideais relativos a humildade e sacrifício; se não é só isso que de fato interessa aqui, mas a existência real de Cristo como um enviado divino que traz a redenção aos crentes através de sua palavra bíblica e possibilidade de testemunho de seu sacrifício... então é evidente que esse Deus, nessa concepção rigorosa, acaba sendo um tanto exclusivista, “calvinista”, “arianista”, “nazista” etc., como propõe Caio Fábio, pois só aqueles que fossem escolhidos para terem acesso a essas palavras e testemunhos é que poderiam se salvar realmente.

É até interessante observamos com mais cuidado a tática retórica desse sujeito. Pois ele demonstra compreender o paradoxo do cristianismo, e até oferece uma explicação razoavelmente detalhada das razões pelas quais o cristianismo teria, nesse caso, um caráter exclusivista da predestinação, que só beneficiaria certos grupos circunscritos a determinados limites “geopolíticos-econômicos-históricos”, isto é, com acesso a este canal da mitologia cristã; sim, ele demonstra que entendeu mais ou menos o problema... mas se o faz, é apenas para malandrosamente dar a impressão de uma suposta superioridade de raciocínio que já teria em si a antecipação de uma resposta incrível e surpreendente a todos os críticos.

Porém, conhecer o paradoxo não é ainda respondê-lo, e se ele mostra saber da existência do paradoxo, já não é verdade que ele nos oferece qualquer resposta a isso. Pois onde estaria exatamente essa resposta? Em parte alguma de seu monólogo confuso, ziguezagueante, dramático e choramingado.

Afinal, o que esse sujeito faz se não reentrar no mesmo paradoxo, contrastando, na sua dialética maluca, uma porção de antíteses conflitantes, de discursos fragmentados e inconclusivos, que no fim só podem mesmo resultar na “síntese do absurdo”?

Senão, vejamos. Em um momento, Calvino — que, nas palavras de Caio Fábio, era um “coitado do século XVI” que, estritamente pelo período histórico em que viveu, não poderia pensar melhor que alguém do nosso século — estava, assim, desautorizado a afirmar certas coisas em questões teológicas ou filosóficas (como, no caso, a de predestinação), pois lhe faltaria o devido acúmulo de saberes (desses meros quatro séculos que se seguiram) que, só desse modo, então, lhe permitiria a correta hermenêutica das escrituras sagradas; a seguir, nesse seu mesmo discurso — que aliás seria facilmente repreendido como evolucionista, historicista e relativista pelos seus colegas cristãos mais ortodoxos (sim, esse senhor, aos olhos de um católico, por exemplo, não passa de um maldito herege, alinhado com o diabo, condenado às chamas infernais) —, a censura de Caio Fábio recai agora sobre o “argumentolinho que ainda faz parte da linearidade temporal de Cronos”, o qual — quão gozado e irônico! — deixa de considerar justamente a simultaneidade de todos os eventos do universo em Deus, e que, por essa razão mesmo, conferiria a certos conhecimentos um caráter de atemporalidade, assim independentes de evolução histórica, apenas por serem revelados através de um canal divino a certos indivíduos espiritualmente, ou intelectualmente, agraciados... o que seria, pois, o caso não só de muitos profetas e teólogos ilustres do cristianismo, mas também do próprio Calvino, criticado minutos antes com base em argumentos opostos, ou seja, evolucionistas, historicistas e relativistas! (Pois é certo que negar esse aspecto teológico significa o mesmo que riscar centenas de páginas da Bíblia, a qual se sustenta sobretudo nessas noções de profecias e revelações incontestáveis de milênios passados... inclusive para justificar a estória de nosso amigo Jesus).

E conforme a dialética do absurdo prossegue na boca inflamada de Caio Fábio, e também nos seus olhinhos meio fechados vislumbrando o além das nuvens douradas, no seu cajado místico que só falta virar uma serpente, e na musiquinha new age ao fundo, com o tom da pregação tornando-se cada vez mais teatralizado, choroso, ambíguo, como o de um louco batendo conhecimentos pseudo-eruditos no liqüidificador de sua esquizofrenia, as antíteses chocam-se ainda mais, revelando-se os contrastes ainda mais gritantes das contradições, e evidenciando toda a loucura desse discurso... até que em um segundo o vemos condenar veementemente a idéia de predestinação (sempre com o uso de adjetivos que denotam sua clara antipatia por certos grupos, como “arianos”, “gregos”, “aristotélicos”) e, no segundo imediatamente seguinte, o vemos, já totalmente despirocado, entrando em parafuso, no curto-circuito de suas antíteses alucinantes, jogar então os braços para o alto, em pura redenção epifânica, agradecendo por ser um desses sortudos predestinados por Deus, pois que, afinal, ele teria recebido a maravilhosa graça divina de estar no “livro da vida”, já que aceitou Cristo e por isso encontra-se já, como bom cristão, na verdade plena... ainda que o conhecimento acerca dessa graça, dessa sorte gratuita, dessa predestinação divina, não possa ser assimilado pela limitada razão humana... apenas ostentado pela inflexível convicção cristã (e, também, como se Calvino tivesse por algum momento tentado justificar suas idéias de predestinação com base em um conhecimento superior de todos os mistérios divinos, em um escrutínio infinito da razão suprema de Deus, e não apenas as afirmado como simples fatos a serem humildemente acatadas e agradecidas por lhe chegarem ao frágil e limitado intelecto humano).

(Obs.: Caio Fábio também parece ter uma certa dificuldade de entender que uma coisa ser “pré-destinada” não significa que ela esteja submetida aos efeitos do tempo, mas exatamente que ela transcende o próprio tempo, estando assim com seu destino traçado no mesmo plano de simultaneidade total e absoluta a que ele se refere quando se põe a criticar a idéia de predestinação apoiando-se, contudo, na idéia de eternidade divina — portanto ele só está o tempo todo confirmando o mesmo conceito de predestinação, embora trocando os termos numa salada bem temperada de poesia e chororô pseudo-filosófico...)

Por fim, analisemos apenas a questão que ele coloca sobre Calvino.

Ora, o que Calvino fez, utilizando sua mente “grega” e “aristotélica” e “linear”, foi na verdade deduzir deste inelutável impasse, implicado por tal paradoxo do cristianismo, a conclusão mais lógica e racional de que, ou o problema deveria recair sobre o primeiro caso (a natureza dispensável de Cristo) ou sobre o segundo (a natureza exclusivista de Cristo); e contudo, como bom representante da causa cristã (ou, poder-se-ia dizer, como uma espécie fiel de "secretário de Cristo"), Calvino, então, sendo minimamente pragmático neste ponto, opta pela segunda alternativa, o que, óbvio, se faz com que sua doutrina adquira um aspecto de fanatismo prepotente e segregacionista, ao menos evita que ela seja relegada a uma questão desprovida das mais altas dimensões metafísicas requeridas para que a fé cristã se firme com um autêntico sentido religioso (e não como um fetiche bobo sujeito aos caprichos humanos — o que ela é no fundo); pois, caso contrário, Cristo tornar-se-ia um elemento meramente historiológico, relativizado, mundano, junto, conseqüentemente, com o cristianismo, as igrejas e pregadores que lhe dão suporte de propagação. (E dessa postura de Calvino acaba decorrendo, ao menos em teoria, que alguns bilhões de inocentes sejam jogados no mar de fogo por simplesmente não aceitarem as palavras e testemunhos de dois mil anos atrás... mas quem liga?)

Portanto, no fim das contas vemos que Calvino utiliza seu pensamento lógico-dedutivo, “grego”, “ariano”, “aristotélico”, apenas como tentativa de salvar as aparências de uma problemática absurda, irracional, passional, e diríamos até “semítica” (pois penso aqui que nos referir a semita desse modo não deve constituir um grande problema para ninguém, já que para Caio Fábio as expressões “grego” e “ariano” podem ser utilizadas de maneira pejorativa, sem que por isso ele seja acusado de “anti-grequismo” ou “anti-arianismo”), algo que talvez sua inteligência confusa e pouco aristotélica não consiga assimilar muito bem... e a depender do que, o cristianismo talvez já tivesse, felizmente, desaparecido há muito, por assim lhe faltar um mínimo de coerência teórica para se manter como algo “sério” no plano das discussões e picuinhas demasiadamente humanas.

quinta-feira, 5 de março de 2015

O imbecil fundamentalista e a mentalidade sectária


   Tratarei agora de algo tão delicado quanto aborrecedor, embora pertinente: a mentalidade sectária do religioso fundamentalista. Afinal é preciso entender que ela, no fundo, representa o mesmo tipo de espírito messiânico, apocalíptico e revolucionário que, igualmente, move o nosso típico esquerdista enfezado, o qual também rejeita este “mundo perverso e decadente” e vive apenas à espera ou em busca do “outro mundo, maravilhoso e perfeito”.

   Assim, essa mentalidade fundamentalista também encontra-se normalmente armada do seguinte dispositivo psicológico de defesa:

   Primeiro ela projeta em um passado mais ou menos remoto (por exemplo, uma certa cristandade medieval onde todos viveriam absolutamente felizes e resignados “em cristo”, o que seria então a versão religiosa do ‘bon sauvage’ de Rousseau, ou do comunismo primitivo de Marx, ou da sociedade de Thule dos nazistas) uma realidade civilizacional quase inteiramente apartada dos eventos reais que compõem um quadro natural de sucessão histórica, com diversos outros complexos civilizacionais inter-relacionados. Desse modo, essa comunidade utópica do passado estaria também desligada de uma dinâmica social verídica, não funcionando mais de acordo com os mecanismos básicos de evolução histórica, como presentes em quaisquer sociedades e civilizações factuais, de qualquer tempo e região do planeta.

   Em seguida, ao “se dar conta” (numa tremenda revelação epifânica, redentora, gnóstica) de que o nosso mundo atual, verdadeiro, empiricamente verificável, encontra-se de fato envolvido até a cintura em um grande processo histórico de forças estranhas a esse seu passado utópico e simplista (que é simplista porque é fictício, e por isso é que não sofreria qualquer influência dessas forças), parece-lhe tremendamente reveladora esta idéia de que uma diabólica trama conspiratória se faz presente no globo, pondo abaixo aquele seu estático mundo de outrora, onde todas as instituições eram constantemente respeitadas por todos e sua bela comunidade jamais se subordinaria a qualquer interesse “estranho” (de grupos internacionais, sociedades secretas, povos estrangeiros, seitas satânicas, e o que mais que possa amedrontá-lo).

   Quer dizer, como se o mundo, que estaria seguindo um certo traçado ideal e perfeito até este momento, de repente sofresse uma ruptura drástica em seus próprios padrões de progressão histórica, saindo então daquela luz divina de antes para cair nas trevas demoníacas de hoje... e não como se apenas a sua percepção é que estivesse desajustada do mundo real, produzindo imaginariamente essa ruptura sem sentido entre um “passado glorioso” e um “presente amaldiçoado”.

   Por exemplo, o típico católico fundamentalista crê mesmo que hoje a maçonaria estaria dominando todas as instâncias políticas e midiáticas da Terra, e que estaria em curso um terrível plano de dominação global das elites anti-cristãs, cujo intuito maior — e cuja conseqüência mais devastadora! — seria a destruição completa de sua tão bonita igrejinha (e claro que essa seria a conseqüência mais devastadora, para ele, já que sua igreja só pode ser o centro de todo o seu mundinho, assim como seu umbigo cristão deve ser o centro de todo o universo).

   O que no entanto ele tem uma certa dificuldade de perceber é que essas “satânicas forças conspiratórias” que hoje se observam em curso SÃO AS MESMAS que, lá atrás, foram responsáveis pela própria criação de sua mesma igrejinha católica, também toda infiltrada desde o princípio por uma série de elementos misticistas, ocultistas, ou comunistóides e fascistóides — e, sim, com o mesmo projeto de dominação imperialista que prometia a paz universal em troca da conversão de todos a um determinado sistema de crença e organização social.

   Mas ô católico burro, pelo amor de jeová (se é que há nessa criatura um pingo de amor e sensatez), entenda de uma vez por todas: não existe nada de místico, puro ou sacrossanto nessa sua mundana instituição. Ela pode ter sido tão perversa, cínica e metida em projetos de dominação, em esquemas de espionagem, e enrolada em ocultismos e misticismos baratos (como por exemplo a idéia de um sujeito que nasce de um útero fecundado espontaneamente e, após sua morte, levanta da tumba que nem o Conde Drácula) quanto no caso da maçonaria atualmente — e, ainda assim, ela pode ter representado ao seu tempo uma coisa tão necessária, útil e em diversos pontos benigna quanto representa hoje a maçonaria, na medida em que ambas se encontram inseridas em um certo processo histórico natural de uma sociedade.

   Assim, o que deveria nos interessar realmente é o entendimento de que, por trás deste variado conjunto de forças históricas, que se revestem ou se moldam em torno de certos agentes institucionais — como a nação x ou y, a religião x ou y, a igreja x ou y, a sociedade secreta x ou y —, deve haver um parâmetro mais sólido e lógico, pelo qual pessoas de inteligência superior podem então interpretar de maneira friamente analítica a dinâmica toda desse processo, a fim de chegar a um veredicto mais realista da situação geral do mundo.

   Um tipo como Marx estava certamente interessado nisso; suas teorias se baseiam nessa perspectiva (e eu, como autêntico conservador, não preciso dizer que ele estava errado — mas estava errado não por querer partir de uma perspectiva realista, e sim por uma série de conclusões equivocadas que se acham no meio de seus estudos e divagações insanas; do mesmo modo que teorias da evolução podem estar erradas, sem no entanto invalidar a perspectiva da evolução como teoria explicativa de um certo processo natural, pois equívocos também podem residir em aspectos pontuais e não somente na abordagem como um todo). Explicado o óbvio, é preciso dizer, além disso, que não só Marx estava interessado em explicar a dinâmica política, social e econômica do mundo: muitos pensadores, antes de Marx, durante a época de Marx, e depois de Marx, já caminhavam nesse sentido... e por quê? Porque, ora, isso é o natural em termos de desenvolvimento do pensamento humano!

  É certo que, munido mais uma vez daquele seu dispositivo infantil e mongolóide de defesa, o fundamentalista tentará aqui atribuir todo o pensamento moderno a alguma coisa satânica, colocando tudo no mesmo balaio de perversões modernas contra seu coitadíssimo e oprimidinho cristianismo, como se tudo que houvesse na face da terra partisse sempre da mesma trama maligna do Anti-Cristo que deseja somente destruir suas supremas e incontestáveis verdades... verdades essas que, por uma determinação divina um tanto suspeita, além de serem extremamente fantasiosas e absolutamente improváveis, estariam circunscritas a um único ponto da história, em posse de um único povo, de uma única cultura: A SUA PRÓPRIA, EVIDENTEMENTE! — e o mesmo se aplica ao judaísmo no caso dos judeus, ao islamismo no caso dos muçulmanos, e assim por diante: todos sempre enxergando a si mesmos como os amabilíssimos protagonistas de um tenebroso enredo conspiratório (onde a crença no saci-pererê só mostra o quão “aberto” se está ao milagre e àquele singelo sentimento de fé no impossível, enquanto a crença no curupira só pode ser uma mentira deslavada, irracional, demoníaca, ainda mais se ela estiver competindo com o saci como um símbolo grupal de culto).

   E veja como esse dispositivo de defesa é muito útil ao religioso fundamentalista, pois dessa forma ele consegue, na sua cabecinha de melão, jogar no mesmo saco de idéias as que foram propostas por Marx e as que foram propostas por quaisquer outros pensadores modernos, já que todas elas estariam igualmente conspirando para o mesmo troço perverso que domina este mundo (exceto os seus troços particulares, pois, é claro, esses seriam a exceção das exceções), e todas ligadas à mesma rede maldita em que se acham atados o cientificismo, o ateísmo, o feminismo, o gayzismo, o veganismo etc. Já o fato de que esse católico bobo consegue muito bem separar a ‘teologia da libertação’ (uma vertente comunista do catolicismo) e seu novo Papa esquerdista da sua doutrina pura e sacrossanta, sem necessariamente considerar a inegável unidade católica que há entre essas coisas todas (pois o esquerdismo só estaria presente na teologia da libertação e no atual Papa xarope da Argentina), pelo visto não lhe permite adotar o mesmo critério elementar que, da mesma forma, poderia muito bem separar Marx de qualquer outro pensador moderno, os quais, apesar de compartilharem da unidade moderna, não necessariamente compartilham de uma mesma unidade esquerdista, ou feminista, ou gayzista, ou ateísta, ou simplesmente “diabólica e perversa”.

   Mas o fato é que esse religioso fundamentalista está impedido desse tipo de abstração elementar pois o que lhe interessa jamais é a simples busca da verdade: é que ele está quase sempre e exclusivamente limitado à simples defesa de seu grupinho cute-cute, que ele crê destacado em um plano estático da história e livre de todos os processos naturais de evolução civilizacional (como se esse grupo tivesse surgido do nada e, isolado na ilha dos anjinhos, apenas devesse combater tudo ao seu redor para manter sua intocável pureza neste mundo diabólico)... ou ele simplesmente encontra-se apegado demais às suas “raízes puras familiares”, com seus estilosos brasões e santinhos enfeitando a sala e receitinhas da vovó, ou, enfim, ao que quer que o ligue nostalgicamente a esse passado ideal, de uma cristandade mágica, imbuída da verdade suprema e absoluta. Porém nós, um pouco menos afeitos a caprichinhos e fetiches bobos de auto-adulação grupal, sabemos bem que tudo isso não passa, no fim das contas, de um mero apego sentimentalóide ligado a um dispositivo de defesa do grupo a que fulano pertence... e mais nada! (E por isso só pode se tratar de uma fraqueza de caráter.)

   Mas voltando-se ao ponto que mais deveria nos interessar, que é entender o que realmente se passa no mundo: é preciso então compreender que, dentre estas forças históricas todas, é possível a um sujeito mais inteligente, racional, sincero, desapegado de panelinhas, encontrar um legítimo parâmetro de análise, seguro e eficiente o bastante para lhe permitir interpretar certos aspectos da dinâmica desse processo histórico, social, político e econômico, e assim chegar a uma conclusão mais realista acerca da situação global que temos hoje. Desse modo ele pode entender que a Igreja Católica, ou a Maçonaria, ou os Estados Unidos da América, ou a União Européia, ou a Organização das Nações Unidas, ou a falida União Soviética, ou o Foro de São Paulo, representam apenas cascas de todo um jogo mais intrincado e profundo de forças geopolíticas, que por sua vez refletem apenas certos tipos de mentalidades vigentes.

   Por essa razão é que o perigo nunca está tanto numa instituição em si, mas nas forças que se encontram por trás dela num determinado momento e posicionadas de acordo com uma certa estratégia política; mais ainda, é preciso entender que por trás desses agentes não existe somente, de maneira simplória, uma força x ou y, mas um complexo emaranhado de múltiplas forças, das mais variadas naturezas, às vezes até opostas entre si, e que desse modo acabam gerando um equilíbrio (ou desequilíbrio) sutilíssimo de se captar. Em última análise, essas forças representam as mentalidades vigentes que se apoderam das instituições e grupos propriamente ditos.

   Logo, o fundamental aqui é a análise dos tipos de mentalidades vigentes (seja na sociedade como um todo, seja em certos grupos de influência), para que então possamos compreender melhor todas essas estruturas e dinâmicas históricas, políticas, sociais e econômicas. Esse deve ser o verdadeiro trabalho de um intelectual sério, comprometido com essas investigações. Por isso — e digo isto de maneira enfática e categórica — não tem como haver qualquer avanço considerável nesses assuntos caso ainda sejam mantidas essas mentalidades sectárias, de grupinhos super-protecionistas consigo próprios, como verificamos tanto entre comunistas como entre religiosos (pelo menos os que levam a sério suas fábulas idiotas, ou seja, os fundamentalistas). Um basta a todos esses imbecis.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Prog-merdal




 


   Eu, particularmente, tenho uma certa dificuldade de diferenciar um músico de prog-metal de um jogador de ping-pong. Ambos vestem uniformes cheios de logotipos de patrocinadores, e ambos treinam as mesmas jogadas repetidamente com o intuito de alcançar a melhor performance.

   No fim, a sensação transmitida pelo prog-metal é somente a de estar dentro de um estúdio cercado por aparelhos e telas digitais com gráficos de equalização sonora. O prato da bateria vibra e a corda do baixo tremula, mas você não é transportado para nenhum mundo fantástico... você só ouve exatamente o prato da bateria vibrando e a corda do baixo tremulando. Você só sente o acolchoado das paredes do estúdio, só vê o gradeado de plástico dos amplificadores, as fileiras de botões e válvulas da mesa de som, os logotipos dos instrumentos musicais. É só disso que se trata o prog-metal.

   É aquela mentalidade do esportista que busca atingir uma determinada meta. Não se trata de fantasia, de sonho, de realidades paralelas nos confins metafísicos do universo, como deve ser a verdadeira arte. Não há grandes emoções, não há sequer sentimento genuíno. É só um bando de cabeludo imbecil fazendo da música algo semelhante ao que um bombado de academia faz com seus aparelhos de ginástica.

   Afinal, tentemos conceituar um pouco as coisas aqui. O exercício de uma manifestação artística, diferentemente de uma atividade ligada ao mundo dos esportes, deve ter em vista sempre dois planos básicos de ação: um é o plano em que a obra é produzida, o processo de criação em si; o outro é o plano para o qual esse processo se direciona, ou seja, o efeito produzido, o resultado final da arte. Um deve ser o oposto do outro. Ninguém dentre o público precisa ver os cabos dos instrumentos se enroscando atrás do palco, ninguém precisa estar ciente dos takes de uma gravação, das camadas de produção, dos artifícios... ninguém, enquanto ouve uma música, precisa sequer se dar conta da existência de um instrumento musical ali no meio do que está ouvindo. O que importa é tão-somente o som... aliás, mais que isso: o que importa é a sensação que provém desse som, e do qual se pode ver surgir um mundo inteiramente novo, fantástico, abstrato. Você ouve o som da guitarra, mas não é o instrumento ‘guitarra’ que está fluindo em sua mente: é a montanha, a caverna, o castelo, a nuvem, o espaço, o demônio, o anjo... as cores, as expressões, as espirais, as forças cinéticas, os choques... enfim, a pura fantasia.

   Por isso existem esses dois planos distintos na arte. Um só pode ser de conhecimento do artista, pois é onde ele cria todas essas coisas na meditação profunda de seu estúdio, onde ele, oculto atrás da cortina e apoiado em seus artifícios, prepara toda a fantasia. O segundo plano, da própria manifestação daquilo que é criado, já é o mundo aberto a quem irá apreciar a obra em si, e portanto sem que se possa, nesse momento de apreciação, entrever aquele outro plano por trás. É precisamente como num show de mágica: você só se encanta pelo truque, só se afeta pela ilusão, se o mágico não deixa à vista o coelho debaixo da mesa.

   Mas essa noção não é compreendida no prog-metal, e, dessa forma, a graça da coisa, para esses cabeludinhos imbecis que a praticam, parece estar inteiramente concentrada no primeiro plano. Eles não criam nada, no fundo... eles, como “criadores” (de fato, apenas dissimuladores), é que desejam ter a atenção toda para si: o outro mundo não lhes interessa; o que lhes interessa é o próprio mundinho de masturbação pseudo-criadora. Pois esses tipos imaginam que a arte é como uma espécie de exercício muscular, em que a admiração do público deve recair sobre a competência que fulano tem para executar certos movimentos com as mãos, com os pés, com as cordas vocais, com as nádegas (enfim, para mexer rapidamente os membros de lá pra cá)... e assim para que se possa, de algum modo, reconhecer o valor do músico no simples fato de ele ter treinado bastante uma determinada técnica. Mas é por essa razão que nunca se vai a lugar nenhum ouvindo prog-metal: você permanece ali no aperto do estúdio, sentindo a brisa do ar-condicionado... vendo os cabeludos punhetarem com seus equipamentos, e mais nada.


   Aliás, é por isso que esse tipo não é capaz de desenvolver nenhuma sensibilidade de timbre, de textura sonora. O som remete sempre à idéia de um mero equipamento eletrônico, de algo que estaríamos vendo numa loja da Sony... ou seja, aquela textura homogênea, de um ambiente meio laboratorial, com um vendedor querendo te convencer do quão cristalino é o som, de quão boa é a performance do aparelho. Em três palavras: musiquinha de workshop.

sábado, 1 de novembro de 2014

Meritocracia e Maniqueísmo — Parte I







As classes e as raças fracas demais para conduzir as novas condições de vida devem deixar de existir.
— Karl Marx    



   Os sujeitos de esquerda, em geral, mostram-se ferrenhos críticos do chamado “regime meritocrático”, isto é, do sistema de hierarquia social em que cada indivíduo e segmento da sociedade recebe seu quinhão de acordo com seu próprio mérito produtivo. Porém, bastando um pingo de razão e franqueza (coisas de gosto amargo para alguns), vemos como é simplesmente absurdo querer ir contra a “meritocracia” e, por conseguinte, a estrutura social hierárquica, tanto quanto é um mero disparate ser contrário a toda e qualquer forma de “maniqueísmo” (aqui refiro-me, claro, não à doutrina gnóstica de Maniqueu, mas à idéia geral de dualidade, de oposição entre bom e ruim, superior e inferior, noção que obviamente deve perpassar as relações políticas e sociais do homem).

   De fato, qualquer indivíduo minimamente sensato, coerente e racional, que tenha procurado alguma vez testar os limites lógicos destes dois conceitos — a “meritocracia” e o “maniqueísmo” —, mesmo sem ter ido muito longe nos seus desdobramentos metafísicos, constata logo que toda esta questão jamais poderia ser posta em termos de se querer ou não uma “meritocracia”, ou de haver ou não algum “maniqueísmo” subjacente às estruturas da realidade — mas, sim, na idéia de QUAL “meritocracia” e QUAL “maniqueísmo” devem, afinal, nos reger. Contudo vejamos, antes, alguns pontos curiosos sobre esse problema, por exemplo a forma como o próprio esquerdista se comporta em relação a isso tudo.

   Ora, em quaisquer dessas típicas teorias de esquerda utilizadas e papagaiadas por aí — sendo as de cunho marxista as mais comuns —, verificamos sempre o mesmo tipo de maniqueísmo barato que divide o mundo em esquemas duais e fatalistas de ‘revolucionários’ contra ‘reacionários’, ou ‘proletários’ contra ‘burgueses’, ou ‘oprimidos’ contra ‘exploradores’, ou ‘pobres’ contra ‘ricos’, ou ‘críticos’ contra ‘alienados’, ou ‘eurasianistas’ contra ‘atlantistas’, ou ‘telurocráticos’ contra ‘talassocráticos’ etc. (e óbvio que confrontações dessa natureza pouco diferem das mais grosseiras disputas religiosas, onde se tem sempre a dualidade ‘fiéis’ contra ‘infiéis’); ou seja, todas elas constituindo formas brutas de maniqueísmo, que estabelecem um lado contra o outro, e onde um é melhor e merece prevalecer, enquanto o outro é pior e deve perecer.

   Assim, pois, seguindo o próprio raciocínio desse pessoal, vemos como é patente que, até para que haja qualquer base de sustentação teórica a esse constante estado de embate entre diferentes classes (econômicas, ideológicas, raciais, étnicas, civilizacionais, espirituais...), se faz absolutamente necessário algum tipo de parâmetro meritocrático, que assim serviria de eixo central a toda essa dinâmica de enfrentamentos grupais — pois então toda a história da sociedade humana só teria até hoje avançado pelos MÉRITOS de determinados grupos, de determinadas classes (sócio-econômicas, ideológicas, raciais etc.), que a cada nova etapa histórica superam suas antagonistas. 

   Isso tudo é coisa óbvia, ululante, e somente um indivíduo incapaz de perceber que 1+1=2 poderia ser contrário aos fatores maniqueísta e meritocrático que desde sempre têm movido as sociedades humanas (para não falarmos do mundo natural como um todo), e que também sempre estiveram devidamente considerados em todo estudo sério de ciência política. 

   Aliás, por ser mesmo um aspecto tão elementar de qualquer teoria explicativa da dinâmica social, é que os próprios Marx e Engels, ou seja, os dois principais teóricos da vertente de pensamento revolucionário, jamais negaram seu valor empírico fundamental. Muito pelo contrário, o sustentaram com uma verbosidade inflamada de causar horror e náusea até nos mais selvagens dos capitalistas “liberais-fascistóides” (na expressão que gostam de alardear os comunistas). Isso porque, apesar da bílis irada e ressentida que estimulava cada um de seus neurônios, esses ainda pareciam funcionar de acordo com um certo senso de realismo, isto é, com alguma observância aos fatos objetivos da realidade geopolítica e econômica; e, por isso, esses dois indivíduos tão cultuados pela esquerda, não sendo nada ingênuos como seus primos utópicos, sabiam muito bem que desprezar este aspecto básico da vida — a meritocracia como um elemento inelutável da realidade — só serviria para enfraquecer sua própria causa, a qual consistia justamente em impulsionar a vitória de uma classe sobre outra, pelos supostos méritos sócio-econômicos que ela teria (por exemplo, a vitória de uma classe trabalhadora-braçal, que supostamente estaria sustentando uma elite mesquinha e folgada que só faz rabiscar porcarias numa folha de papel). 

   É desse modo, afinal, que Marx e Engels, dois grandes rabiscadores de porcarias em folhas de papel, buscavam explicar que a classe burguesa, sendo num determinado momento histórico preponderante economicamente à classe feudal, pôde então prevalecer sobre a inimiga reacionária. Teria sido, portanto, os MÉRITOS de uma classe sobre a outra que garantiram a preponderância do tipo burguês, com sua industriosa força empreendedora, em cima dos senhores de terra do medievo, acomodados em seus castelinhos góticos — exatamente como prescreve a noção meritocrática: ora, o melhor mereceu prevalecer na sociedade, na economia, na política, na história; enquanto o pior mereceu ser rebaixado.

   Desse modo, também, é que os mesmos teóricos comunistas pretendiam que a classe proletária venceria a burguesa, impondo através do terror revolucionário um novo regime político (a famigerada ditadura do proletariado): novamente, pelo alegado mérito de ter em si a superioridade da força de produção econômica; sem esquecer, é claro, de seus líderes e elites burocráticas comandando tudo, pelo também alegado mérito de ter em si a superioridade do engajamento político.

   Assim, é muito natural que Marx e Engels estivessem sempre fazendo declarações de ódio nesse sentido acachapantemente maniqueísta — como as que se seguem nesta pequena compilação que aqui separo de trechos de algumas obras e correspondências:





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“Sob a sociedade está em curso uma revolução silenciosa que nada faz notar acerca da existência humana por ela posta abaixo, assim como um terremoto faz em relação às casas por ele destruídas. As classes e as raças fracas demais para conduzir as novas condições de vida devem deixar de existir. Porém pode haver algo mais pueril, de mais curta visão, do que o ponto de vista desses economistas que acreditam piamente que este lamentável estado de transição nada significa além de adaptação da sociedade às propensões aquisitivas dos capitalistas, tanto senhores de terra quanto senhores do dinheiro?”

KARL MARX (Emigração Forçada, 1853)





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“Pelo mesmo direito que a França tomou Flandres, Lorena e Alsácia, e cedo ou tarde tomará a Bélgica — pelo mesmo direito a Alemanha toma para si [o território então dinamarquês de] Schleswig; esse é o direito da civilização contra a barbárie, do progresso contra a estabilidade. Ainda que os acordos estivessem a favor da Dinamarca, o que é bastante suspeito, este direito carrega um peso maior que todos os acordos, pois é o direito da evolução histórica.” 

F. ENGELS (O Armistício Dano-Prussiano, Neue Rheinische Zeitung, 9 de Setembro de 1848)





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Todos os povos reacionários estão destinados a perecer ante a tempestade mundial revolucionária. (...) Esses fragmentos residuais de povos sempre se tornam barreiras de fanatismo reacionário e conseguem se manter até sua completa extirpação ou perda de suas características nacionais, assim como toda sua existência é por si, em geral, um protesto contra a grande revolução histórica. (...) Uma guerra geral esmagará esses eslavos e limpará todas essas nações conservadoras mesquinhas. A próxima guerra mundial resultará no desaparecimento da face da terra não apenas das classes reacionárias e dinásticas, mas de todos os povos reacionários. E isso também é uma passo adiante.”      

F. ENGELS (A Luta Húngara, Neue Rheinische Zeitung, 13 de Janeiro de 1849)






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“Um fantasma está rondando a Europa — o fantasma do Comunismo. (...) A história de todas as sociedades que até hoje existiram é a história da luta de classes. (...) Esboçando em linhas gerais as fases do desenvolvimento proletário, descrevemos a história da guerra civil, mais ou menos oculta, que alastra-se na sociedade atual, até o ponto em que essa guerra explode numa revolução aberta e o proletariado estabelece sua dominação pela derrubada violenta da burguesia. (...) O proletariado utilizará sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo o capital da burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado (...) Isto naturalmente só poderá realizar-se, em princípio, por uma violação despótica do direito de propriedade e das relações de produção burguesa. (...) Os proletários nada têm a perder; sua missão é destruir todas as garantias e segurança da propriedade privada até aqui existentes. (...) Em resumo, acusai-nos de querer abolir vossa propriedade. De fato, é isso que queremos.”

KARL MARX & FRIEDRICH ENGELS (Manifesto Comunista, 1848)





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“Em relação aos lemas sentimentais de irmandade que as nações mais reacionárias da Europa têm nos oferecido, nós respondemos que o ódio à Rússia foi e ainda é a paixão primordial da revolução entre os alemães; e que, tendo sido ainda acrescentado o ódio revolucionário aos checos e croatas, somente pelo uso mais determinado do terror contra o povo eslavo nós poderemos, junto com os poloneses e húngaros, salvaguardar a revolução. (...) Então haverá uma luta, uma inexorável luta de vida ou morte contra esses eslavos que traem a revolução; uma batalha de aniquilamento e de terror brutalnão ao interesse da Alemanha, mas ao interesse da revolução!

FRIEDRICH ENGELS (Pan-Eslavismo Democrático, Neue Rheinische, 14 de Fevereiro de 1849)





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“A luta do proletariado contra a burguesia, embora não seja na essência uma luta nacional, reveste-se contudo dessa forma nos primeiros tempos. É natural que o proletariado de cada país deva, antes de tudo, liqüidar sua própria burguesia.

KARL MARX & FRIEDRICH ENGELS (Manifesto Comunista, 1848)




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“Os franceses precisam de uma surra. Se os prussianos vencerem, a centralização do poder do Estado será útil para a centralização da classe trabalhadora alemã. A predominância alemã também transferiria o centro de gravidade do movimento trabalhador na Europa Ocidental da França para a Alemanha, e só bastaria comparar o movimento nos dois países de 1866 até o presente momento para verificar que a classe trabalhadora alemã é superior à francesa tanto em sentido teórico quanto organizacional. Sua predominância sobre os franceses em nível mundial também significaria a predominância de nossa teoria sobre a teoria de Phoudhon.”

KARL MARX (Carta a Friedrich Engels em Manchester, 20 de Julho de 1870)




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“Esse é o traço redentor da guerra: ela impõe um teste à nação. Como a exposição à atmosfera reduz todas as múmias à dissolução instantânea, assim a guerra faz o julgamento supremo sobre os sistemas sociais que passaram de seu prazo de validade.

KARL MARX (Uma Outra Revelação Britânica, 24 de Setembro de 1885)




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“Jacoby se desqualificou para essa tarefa. Esse homem é sábio demais. Seus argumentos são tão triviais e de uma vulgaridade democrática! Ele denigre o uso da força como algo repreensível em si, mesmo quando todos nós sabemos que no fim nada pode ser alcançado sem o uso da força.

FRIEDRICH ENGELS (Carta a Wilhelm Blos, 21 de Fevereiro de 1874)





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“Esses cães democratas e ralé liberal verão que nós fomos os únicos que não se entorpeceram pelo medonho período de paz.

KARL MARX (Carta a Friedrich Engels, 25 de Fevereiro de 1859)





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“Esses cavalheiros já viram uma revolução? Uma revolução é certamente a coisa mais autoritária que existe; é um ato pelo qual uma parte da população impõe sua vontade sobre a outra por meio de rifles, baionetas e canhões, que são todos meios altamente autoritários. E o partido vitorioso deve manter suas regras por meio do terror que suas armas inspiram nos reacionários. Teria a Comuna de Paris durado mais que um dia se ela não tivesse usado a autoridade do povo armado contra os burgueses? Não podemos, pelo contrário, culpá-la por ter feito só pouco uso dessa autoridade? Logo, das duas uma: ou esses anti-autoritaristas não sabem do que estão falando, situação em que só estão confundindo tudo. Ou eles sabem, e nesse caso estão traindo a causa do proletariado. Em ambos os casos eles servem apenas aos reacionários.

FRIEDRICH ENGELS (Controvérsia com os anarquistas, 1873)





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“No momento em que a crise chegar, a população inglesa terá se cansado de ser saqueada e deixada para morrer de fome pelos capitalistas (...) Se, nesse período, a burguesia inglesa não tiver tomado juízo — e ao que tudo indica isso certamente não ocorrerá — teremos uma revolução com a qual nenhuma outra pode se comparar (...) a vingança popular alcançará uma intensidade maior do que aquela que animou os trabalhadores franceses de 1793 [Revolução Francesa]. A guerra do pobre contra o rico será a mais sangrenta jamais vista. Mesmo a conciliação de parte da burguesia com o proletariado, mesmo uma reforma geral da burguesia, de nada adiantará.”

FRIEDRICH ENGELS (A Condição da Classe Trabalhadora na Inglaterra, 1845)





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“Acima de tudo, os trabalhadores devem fazer o possível para se opor às tentativas burguesas de pacificação e forçar os democratas a levar adiante seus lemas terroristas. Eles devem se esforçar para garantir que a excitação revolucionária não seja extinguida imediatamente após a vitória. Ao contrário, ela deve ser mantida o máximo que puderem. Muito longe de se opor aos chamados excessos — por exemplo a vingança popular contra indivíduos odiados ou contra edifícios públicos associados a memórias odiosas —, o partido dos trabalhadores deve não apenas tolerar essas ações mas dar a elas a direção. (...) Ao primeiro instante da vitória, a suspeita dos trabalhadores deve ser direcionada não mais contra o partido reacionário abatido, mas contra seus primeiros aliados, contra o partido [democrata] que pretende agora explorar a vitória comum para seus próprios fins (...) Para que sejam capazes de se opor com força e de modo ameaçador a esse partido [democrata], cuja traição aos trabalhadores terá início no primeiro momento após a vitória, os proletários devem ser armados e organizados. Todo o proletariado deve ser armado de uma vez com mosquetes, rifles, canhão e munição. (...) os trabalhadores devem se organizar entre si em uma guarda proletária independente, com seus próprios líderes e generais, para se colocar às ordens não do Estado mas das autoridades revolucionárias estabelecidas pelos próprios trabalhadores.”

KARL MARX & FRIEDRICH ENGELS (Discuso à Liga Comunista, Março de 1850)





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“O lumpemproletariado [lumpen: ‘trapo, farrapo, ou canalha, desprezível’ + ‘proletariado’], essa escuma de membros degenerados de todas as classes, que tem seu quartel nas grandes cidades, é o pior tipo de aliado. Essa ralé é totalmente vendida e repulsiva. Se os trabalhadores franceses, no curso da Revolução, inscreveram ‘Mort aux voleurs!’ (Morte aos ladrões!), e mesmo derrubaram muitos deles, o fizeram não por apego à propriedade, mas por considerarem, corretamente, que isso era necessário para manter esses bandos de fora. O líder dos trabalhadores que usa esses patifes como guardas ou confia o apoio neles se prova por esse único ato um traidor do movimento.”

F. ENGELS (A Guerra dos Camponeses na Alemanha, Prefácio do Autor à Segunda Edição, 1870)




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Sob o pretexto de fundar uma sociedade benevolente, o lumpemproletariado foi organizado em sessões secretas de Paris, cada uma liderada por agentes bonapartistas, com um general bonapartista no comando. Junto com libertinos arruinados, de meios duvidosos de subsistência e duvidosas procedências, junto com descendentes aventureiros e degenerados da burguesia, estavam vagabundos, dispensados de tropa, ex-presidiários, fugitivos, trapaceiros, saltimbancos, sem-tetos, batedores de carteira, charlatães, jogadores, cagoetas, cafetões, donos de bordéis, bagageiros, escrevinhadores, tocadores de realejo, trapeiros, amoladores, caldeireiros, mendigos — em uma palavra, toda essa massa informe, difusa e errante que os franceses chamam de boêmia.”

KARL MARX (O Décimo Oitavo Brumário de Luís Bonaparte, 1852)






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   Fica claro, portanto, que um tipo cruel de meritocracia e um tipo radical de maniqueísmo estão, sim, presentes com muita força nas teorias socialistas, e na mentalidade esquerdista e revolucionária como um todo — de modo que, voltando-se à questão do início, vemos que uma coisa só deve realmente interessar aqui: entender QUAIS são, afinal, os tipos de meritocracia e de maniqueísmo (ou, na verdade, dualismo) que regem uma sociedade sadia, e cuja observância mais realista, coerente, sincera, garantem um modelo de maior justiça e estabilidade social, sem que haja, assim, um incessante fluxo de guerra e ódio entre as diferentes classes e nações. Esse será, pois, o assunto a ser tratado nos próximos capítulos deste ensaio.